Menina submetida a aborto no Recife deve receber alta nesta sexta-feira

RECIFE ¿ A menina de nove anos que foi submetida a um aborto em Recife, após ter sido violentada pelo padrasto e engravidado de gêmeos, deve receber alta somente nesta sexta-feira ou, no máximo, no sábado. De acordo com a educadora da organização não-governamental SOS Corpo, Carla Batista, que acompanha o caso, a menina ainda não foi liberada porque está sendo submetida a alguns exames para verificar a possível ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis.

Anderson Dezan, do Último Segundo |

A maternidade onde ela está internada está fazendo todas as verificações possíveis para que a menina saia do hospital realmente medicada, com todas as garantias de segurança, informou a militante, reforçando que todas as ações que vêm sendo tomadas pela unidade médica estão corretas.

A menina de nove anos sofreu um aborto induzido na manhã de quarta-feira e, de acordo com os médicos da Maternidade Cisam, vinculada à Universidade de Pernambuco, seu quadro de saúde é bom. A paciente recebeu medicamentos para expulsar os fetos e passou por uma cirurgia para interromper a gravidez de alto risco.

A criança, que sofria abuso sexual do padrasto há três anos, em Alagoinha, Agreste pernambucano, estava no quinto mês de gestação de gêmeos, e iria realizar o procedimento de aborto no Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip), onde estava internada desde a semana passada. No entanto, segundo Carla Batista, a unidade acabou sendo pressionada pela Igreja Católica e ficou adiando a intervenção.

O hospital estava protelando para realizar o procedimento porque estava sendo pressionado pela Igreja Católica. Fomos intervir no caso porque a demora na cirurgia representava mais riscos. Levamos a menina para a Cisam, que aceitou em recebê-la, disse a representante da ONG SOS Corpo.

Excomunhão

Nesta quarta-feira, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou os médicos envolvidos no aborto. A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor, disse o bispo.

De acordo com os médicos, a menina, que tem 1,33m e pesa 36kg, não apresentava estrutura física que sustentasse uma gravidez. Segundo eles, a paciente corria risco de morte caso a gestação continuasse. Além disso, a legislação brasileira permite o aborto em vítimas de estupro até a 20ª semana de gestão.

A excomunhão do arcebispo se torna irrelevante para todas nós que ajudamos no caso. É irrelevante a posição do arcebispo. Essa é uma questão que não perpassa pela religião. Os médicos agiram conforme a lei. O Estado brasileiro tem que ser respeitado. A ação do Estado não pode ser regida pela ação religiosa, analisou Carla Batista.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou nesta quinta-feira que a decisão da Igreja Católica de excomungar os envolvidos no aborto foi radical e inadequada. Para Temporão, o ato de excomungar os envolvidos no aborto é um contra-senso diante do que aconteceu à criança.

Fiquei chocado com os dois fatos: com o que aconteceu com a menina e com a posição desse religioso que, equivocadamente, ao dizer que defende uma vida, coloca em risco uma outra tão importante.

O caso

A gravidez foi descoberta no último dia 25 de fevereiro, quando a menina de nove anos se queixou de tonturas e foi levada pela mãe à Casa de Saúde São José. Exames constataram que a criança já estava na 16ª semana de gestação e que a gravidez era de alto risco por conta da idade.

A criança informou à polícia que os abusos começaram quando ela tinha seis anos de idade, e que o padrasto, de 23 anos, a ameaçava de morte caso contasse sobre os abusos a alguém. Ele foi preso quando se preparava para fugir para a Bahia. Em seu depoimento, o padrasto confessou que também abusava da enteada mais velha, de 14 anos, portadora de deficiência física.

O Ministério Público, a Secretaria Estadual de Políticas para a Mulher e as ONGs Curumim e SOS Corpo acompanham o caso e irão oferecer recursos e tratamento psicológico para as vítimas.

(Com informações da Agência Brasil e Agência Nordeste)

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