Memória da Saúde em S.Paulo agora na internet Por Simone Iwasso São Paulo, 16 (AE) - Em 1899, a Rua Augusta, no centro de São Paulo, abrigava uma grande cocheira, que passou por uma inspeção da Vigilância Sanitária no dia 26 de janeiro daquele ano por causa das más condições de higiene.

Em 9 de março de 1910, quatro adultos, doentes de sarampo, foram transferidos de um quartel da polícia, onde estavam retidos por causa da doença, para um hospital de isolamento em Campinas, a 100 Km da capital paulista. No dia 30 de janeiro de 1919, mais de 85 pessoas foram vítimas da gripe espanhola em Ribeirão Preto, a 310 Km da capital, - em dois anos, cerca de 30 milhões de pessoas no mundo morreram por causa da epidemia.

As notícias - que fazem parte da história da saúde no Estado de São Paulo e ajudam a conhecer melhor como doenças, epidemias e condições sanitárias surgiram e foram tratadas em 117 anos - fazem parte do acervo do Diário Oficial do Estado. A publicação foi criada em 1891 para dar transparência aos atos da recém-proclamada República.

Antes disponível para consulta só em papel, nos volumes arquivados na biblioteca da Imprensa Oficial, esse histórico foi digitalizado e agora está na internet. Interessados podem consultar gratuitamente os arquivos no site (www.imesp.com.br). É possível também usar palavras-chave para fazer a busca ou usar datas para a consulta.

"Foram dois anos e meio de trabalho para digitalizar todo o acervo e organizar o programa com o sistema de busca", diz o diretor-executivo da Imprensa Oficial de São Paulo, Hubert Alquéres. "A internet é uma ferramenta poderosa para a informação e estamos usando esse meio para preservar a memória e divulgar a história do Estado." No total, o projeto custou R$ 9,5 milhões.

Nos arquivos, é possível verificar medidas adotadas contra a varíola e o tifo, uma das principais causas de mortalidade nas aglomerações urbanas brasileiras, levando governos a criar pavilhões de isolamento para os doentes em regiões afastadas, como estradas no caminho para o interior. Os anúncios de vacinação em massa também aparecem de tempos em tempos na publicação, seja convocando a população ou registrando campanhas realizadas.

Em fevereiro de 1899, por exemplo, foi publicada uma lista de pessoas que trabalhavam na cidade como médicos e parteiras sem os títulos necessários para isso - na época, São Paulo ainda iniciava a transição para se transformar em uma cidade industrial, sendo então uma vila pobre e colonial, sem água potável, iluminação e muito menos serviços de saúde adequados.

Os registros dos imigrantes também aparecem nos arquivos. Em 23 de junho de 1908, dez dias depois da chegada do navio Kasato Maru (o navio que transportou o primeiro grupo de imigrantes japoneses vinculados ao acordo estabelecido entre o Brasil e o Japão), foi feita uma vacinação contra varíola na Hospedaria do Imigrante, local destinado a abrigar os recém-chegados à cidade, com vagas para mais de mil pessoas.

O saldo, segundo os registros, foi de 792 japoneses, 89 italianos, 3 franceses e 2 austríacos imunizados. O local hoje abriga o Memorial do Imigrante, destinado a preservar a memória dos que passaram por lá em mais de um século.

Em 1967 aparece uma notificação comunicando a obrigatoriedade do uso de copo de papel, no lugar do de vidro, nos estabelecimentos comerciais da cidade. A medida, segundo a publicação, estava relacionada ao estudo conduzido na Faculdade de Higiene e Saúde Pública, que identificou mais de 80 mil microrganismos por utensílio. No ano seguinte, em pleno regime militar, no dia 17 de julho, a publicação trouxe a informação de que um projeto havia vacinado mais de 60 mil crianças contra o sarampo.

NO PAPEL
Já uma outra parte da história da saúde de São Paulo, que seria abrigada no prédio do antigo Desinfetório Central, no Bom Retiro, região central da cidade, está encaixotada, esperando o funcionamento do centro de memória. Documentos, filmes e fotos estão encaixotados no local aguardando o desenrolar do projeto.

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