MADRI ¿ Duas das pinturas mais emblemáticas de Tarsila do Amaral (1886-1973), Antropofagia e A Negra, poderão ser vistas na exposição que a Fundação Juan March dedica à artista, um dos expoentes do modernismo brasileiro e uma das principais figuras vanguardistas da América Latina.

No total, 182 obras formam a primeira exposição organizada na Espanha - e a segunda na Europa - dedicada à pintora, que, em suas viagens pelo continente europeu, interiorizou os conceitos que definiriam os princípios do modernismo na América Latina.

Juan Manuel Bonet, curador da mostra, focou a seleção de pinturas nos anos de maior destaque na produção artística de Tarsila, entre 1922 e 1933, que abrangem as correntes culturais intimamente ligadas Pau-Brasil e Antropofagia, das quais foi máxima expoente em pintura.

As obras de Tarsila, que foi casada por alguns anos com Oswald de Andrade, outro grande nome da vanguarda latino-americana e autor do Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) e do Manifesto Antropofágico (1928), estão contextualizadas na exposição com quadros de outros artistas.

Desde telas como "Mulher Tapuia" (1641) ou "Natureza morta" (1641-44), ambas de Albert Eckhout, a trabalhos de alguns dos mais destacados nomes do modernismo brasileiro, como "Figura Sentada" (1924), de Vicente do Rego Monteiro, ou "Cabeça de mulata" (1927), de Lasar Segall.

Outras peças, como braceletes, coroas ou máscaras da Amazônia, contribuem para recriar uma atmosfera brasileira e ambientar uma mostra na qual também são exibidas obras sobre papel, revistas e uma abundante documentação relacionada com a artista, que reuniu toda a modernidade europeia com a cultura popular brasileira.

Europa e América, cubismo e tropicalismo, geometria e vegetação, campo e cidade, são algumas das antíteses sobre as quais se fundamenta o trabalho plástico de Tarsila do Amaral, exótica, sofisticada e cosmopolita.

A artista, durante sua estadia por Paris, se alimentou das correntes da vanguarda europeia como uma civilizada antropófaga. Ao voltar ao Brasil, digerir as informações recebidas e reencontrar as cores e as formas de sua infância no interior de São Paulo dariam lugar, nos anos 1920, ao auge de seu talento, no qual se centra a exposição.

Figura central do movimento antropofágico, Tarsila concilia, em sua obra, o que aprendeu na Europa com um olhar para o Novo Mundo redescoberto, segundo Juan Manuel Bonet.

O curador confessa que realizou um sonho com a exposição, em Madri, da pintora, que soube assimilar o melhor do europeu e da história brasileira, criando uma nova linguagem.

Sua obra, segundo Bonet, foi a mais importante contribuição do continente americano à cultura moderna, como se pode contemplar em pinturas como "Antropofagia", peça emblemática do modernismo que pode ser vista em um percurso no qual também se destaca "A família" (1925), que o museu espanhol Rainha Sofía comprou em 2003.

Manuel Fontán, diretor de Exposições da Fundação Juan March, definiu a mostra utilizando uma frase da própria Tarsila: "Nossa felicidade é irremediável".

Ele destacou ainda que, através dela, o público poderá descobrir uma artista, "que em um romance policial, seria uma espécie de agente duplo, entre Europa e Brasil".

Aracy Amaral, especialista em arte brasileira e em Tarsila, destacou a dificuldade de organizar exposições como a da Fundação March.

Isso porque, segundo ele, as telas da artista brasileira se encontram principalmente em coleções privadas, "que hesitam em emprestá-las, por isso é um sucesso ter reunido tantas obras suas".

(Reportagem de Mila Trenas)

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