Medo de se expor ainda é maior dificuldade

Presidente do TJ-SP diz que criança abusada "demora a exteriorizar. Às vezes nem exterioriza, não fala, pra não ser apelidado"

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

O presidente do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo, desembargador Antonio Carlos Viana Santos, afirmou durante o 5º For-JVS (International Forum of Justice), realizado na última semana, na Fiesp, que a internet deu um “impulso” a um problema comum “no decorrer da história”. Segundo ele, com a exposição de fotos, filmes e contatos via webcam, crianças ficaram mais vulneráveis aos crimes de pedofilia.

No entanto, segundo ele, a grande dificuldade para a apuração de casos de abusos ainda é o medo da criança agredida em exteriorizar o problema. Durante a apresentação do fórum, há duas semanas, o desembargador causou polêmica ao dizer que as denúncias contra padres da Igreja Católica eram omitidas porque as vítimas temiam ficar conhecidas como “comida de padre”.

“A grande dificuldade é que quem é agredido demora a exteriorizar. Às vezes nem exterioriza, não fala, pra não ser apelidado. Isso só acontece dali a anos, quando pode desenvolver depressão profunda e complexos. A vergonha é igual à da mulher quando acontece o estupro”.

Viana diz que a situação tende a ser mais bem combatida à medida que forem criados mecanismos que garantam a segurança ao denunciante, tal como aconteceu com a instalação das delegacias para a mulher. “A mulher era violentada ou apanhava do marido e não ia para delegacia porque iam ser atendidas por homens que a ridicularizavam e perguntavam se não tinham sido abusadas voluntariamente. Hoje a delegada é mulher. E temos a Lei Maria da Penha. Temos que ter delegacias com profissionais com preparo psicológico para saber lidar com esse adolescente e deixar a criança mais à vontade”, disse.

“No Judiciário temos as varas de Infância e Juventude. Porque muitas vezes o problema está na família e o assistente social faz trabalho de campo para saber o que se passa com a criança. Se nós profissionalizarmos o combate, como aconteceu com a delegacia da mulher e lei Maria da Penha, vai haver essa conscientização”, disse Viana.

Outras dificuldades

De acordo com David Brassanini, adido no Brasil do FBI, a polícia federal norte-americana, as inovações tecnológicas e o maior acesso a serviços como internet se transformaram em terreno fértil para grupos criminosos ligados à exploração sexual. Segundo ele, os crimes cibernéticos estão “cada vez mais sofisticados” porque beneficiam o anonimato.

Para o agente, a prática de pedofilia não distingue países ricos e países pobres. Os pilares para o crime, diz, são a comunicação, a facilidade de obter dinheiro ilícito e a possibilidade de mudarem rapidamente de lugar.

A forma de se combater a questão, segundo Brassanini, é mapear, por meio de uma força-tarefa entre Ministério Público e policiais, as formas com que as organizações se comunicam e identificar a fonte de recursos com as quais atuam. Para isso, defende, é fundamental que haja agilidade em relação a indícios observados na internet, que podem ser retirados no ar a qualquer momento.

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