Médicos contrariam Anvisa e defendem venda de emagrecedores

Para especialistas, governo tenta banir comercialização por não conseguir fiscalizar venda

Naiara Leão, iG Brasília | 05/04/2011 21:51

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Em meio às tentativas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de banir a venda de medicamentos que moderam o apetite no país, médicos e representantes da indústria farmacêutica defenderam a manutenção da venda dos inibidores na Câmara dos Deputados nesta terça-feira.

Para os representantes do setor convidados para a audiência pública, os remédios emagrecedores podem trazer mais benefícios do que riscos à saúde de alguns grupos de pessoas, como os obesos, porque reduziriam sua exposição a hipertensão e diabetes.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Paulo Giorelli, cerca de 90% dos pacientes com excesso de peso sofrem de algum tipo de diabete e 70% têm hipertensão. “Nenhuma outra doença mata tanto quanto a obesidade. Se sobrar um remédio só, não será possível vencer essa doença”, diz, referindo-se ao Xenical (orsalite), emagrecedor fora da mira da Anvisa porque em vez de atuar no sistema nervoso central, age no intestino.

A proposta da Anvisa de proibir a sibutramina e os derivados de anfetamina (fenproporex, dietilpropiona e mazindol) foi apresentada em fevereiro, por nota técnica da agência que defendia o cancelamento dos registros de inibidores de apetite que atuam no sistema nervoso central. No mesmo mês, a Anvisa tornou mais rígida a venda desses medicamentos, exigindo receita especial para a compra.

O representante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Ricardo Meirelles, afirma que as medidas revelam a dificuldade do governo em fiscalizar a comercialização dos remédios de uso controlado. “Aqui no Brasil as coisas têm que ser oito ou oitenta, porque não se tem recursos para uma fiscalização rigorosa”, disse.

Medicamentos são indicados após cirurgias

Os pacientes que passam por cirurgias que restringem sua alimentação ou só permitem uma dieta líquida, ou seja, com necessidade de redução da alimentação, também foram citados por médicos como casos em que os inibidores seriam recomendados.

Para os médicos convidados à audiência na Câmara, a discussão deve se concentrar na forma como os remédios são prescritos. “O que pleiteamos é que se promova o uso consciente desses medicamentos, aliado ao direito de escolha do paciente”, afirmou Henrique Batista e Silva, do Conselho Federal de Medicina.

Para a Anvisa, os remédios anfetamínicos têm eficácia modesta na perda de peso e seus efeitos colaterais podem levar a doenças cardiovasculares e derrames associados à sibutramina, por isso a vontade de bani-los.

Segundo a chefe de Vigilância Pós-Uso/Comercialização da Anvisa, Maria Eugênia Cury, o controle do medicamento tem sua eficácia restrita. “Apesar de estarem sob controle há 20 anos, os inibidores de apetite continuam sendo consumidos em larga escala.”

Banalização do consumo

Médicos e Anvisa concordam sobre essa banalização dos emagrecedores nos últimos anos. Segundo Maria Eugênia, em 2003, o Brasil consumiu 76% da produção mundial de anfepramona e 78% de fenproporex. Além disso, em 2009 e 2010, a sibutramina foi usada na maioria das vezes por seu efeito colateral psicológico.

Nesses anos, ela destacou, ainda, que foram os pediatras os campeões em receitas de fenpreporex. Um terço das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos tem excesso de peso e 14% são obesas, de acordo com dados do Ministério da Saúde coletados em 2008 e 2009.

“(Na pediatria) não me parece o uso mais adequado destes medicamentos”, admitiu o representante da SBEM, Ricardo Meirelles. Com isso, ele ressaltou a necessidade de se discutir a orientação da prescrição, em vez do uso.

As deputadas Alice Portugal (PC do B – BA) e Jô Moraes (PC do B – MG), que fazem parte da Comissão de Saúde da Câmara, querem criar uma subcomissão específica para manter o assunto em discussão.
 

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