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Matheus Natchtergaele estréia A festa da menina morta em Cannes

Em um isolado povoado da Amazônia, um santo andrógino, irritadiço e milagreiro, seu pai incestuoso e mulherengo, adoradores, céticos e uma multidão de personagens fortes compõem um sólido retrato proposto em A festa da menina morta, do brasileiro Matheus Natchtergaele.

AFP |

Apresentado nesta quarta-feira na sessão oficial 'Un Certain Regard' do Festival de Cannes, o filme de Natchtergaele leva o espectador para o alto Amazonas, às margentes do Rio Negro, uma comunidade ribeirinha.

Todos os anos, há duas décadas, a cidade recebe peregrinos que desejam obter a benção de um jovem santo andrógino.

Diz a lenda que o menino, órfão de mãe, realizou um milagre ao encontrar um vestido ensangüentado de uma menina desaparecida que todos os anos fala pela boca do santo em transe.

Com a passagem do tempo, a indumentária se tornou uma espécie de relíquia, e a comemoração um negócio muito lucrativo, impulsionado pelo pai do 'menino santo', um mulherengo que mantém uma relação incestuosa com o filho. O povoado, onde vivem brancos, negros e asiáticos, é divido entre adoradores e céticos, entre eles o irmão da menina morta, amigo do santo.

Em sua estréia como diretor, o conhecido ator Matheus Natchtergaele não escolheu a facilidade para desenvolver um universo pessoal próprio, uma história complexa, sustentada por roteiro com personagens fortes, atores excelentes e direção impecável.

"O filme e os personagens são uma metáfora de uma experiência vivida por mim, não é minha história, e sim a poesia da minha história", declarou o diretor à AFP.

"Estamos perdidos sem Deus e inventamos muitas formas de fé para dar sentido a essa aventura da vida: todos os personagens de 'A festa' acreditam em algo", disse.

"Eu quis fazer um retrato íntimo de todos os personagens que giram em torno da festa", explicou o diretor.

Natchtergaele consegue ainda incorporar com grande fluidez elementos improváveis de modernidade como canções italianas, hip-hop ou um "espetáculo" de variedades patrocinado por uma marca de cerveja.

"Retrato de uma parte do Brasil, a mistura de religiões, a pobreza diante da modernidade, as pessoas que vivem longe da cidade, é uma fábula ancorada na realidade. O santinho é o centro da atenção e ao mesmo tempo é explorado pela comunidade, é líder de algo que não controla e começa a interpretar muito bem seu papel", acrescentou.

"Essa seita foi inventada por nós, com elementos do catolicismo, das igrejas evangélicas, do espiritismo e das crenças negras como o candomblé. Eu mesmo não-católico de nascimento mas nunca tive uma religião única, como boa parte dos brasileiros", explicou.

"A festa da menina morta" foi filmada em Barcelos, uma cidade situada a 400 km de Manaus.

Para Natchtergaele, que trabalhou com Fernando Meirelles em "Cidade de Deus" e com Walter Salles em "Central do Brasil", os dois diretores brasileiros que competem esse ano em Cannes, o fato de ser um ator se tornou uma vantagem para dirigir o filme.

"A edição e as outras etapas da pós-produção, que eu não conhecia, foram terríveis, até deixar o filme do jeito que eu havia sonhado", reconheceu.

"Em contrapartida, os atores profissionais e outros de teatro de Manaus se mesclaram muito bem com os selecionados entre a população. Eu fazia com que dançassem uma dança local, para facilitar a integração e a concentração", acrescentou.

Antes da primeira apresentação pública do filme, Natchtergaele e os 14 componentes presentes fizeram um minuto de silêncio com as mãos dadas, um ritual que realizavam todos os dias durante as filmagens.

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