Material é jogado a céu aberto em lixão, não há controle

Especialistas ouvidos pelo iG falam dos riscos do terreno onde está o Center Norte. Para um deles, interdição é recomendada

iG São Paulo |

De acordo com especialistas ouvidos pelo iG , construir um shopping center em cima de um terreno que já recebeu um lixão não oferece segurança. O caso do Center Norte, que deve ser interditado até sexta-feira, ilustra bem isso. Construído em 1984 pela família Baumgart, o terreno onde fica hoje o Center Norte (que engloba ainda o Lar Center e um supermercado Carrefour) foi o antigo Aterro Carandiru, aterrado pelos restos das obras do metrô e da implosão do edifício Mendes Caldeira, na década de 70.

AE
Complexo Center Norte tem até 72h para a suspensão das atividades. Lar Center e Carrefour também foram interditados

“Em um lixão, o material é jogado a céu aberto, não há nenhum controle,” explica André Rosa, químico ambiental do campus de Sorocaba da Unesp. O aterramento “fecha” o lixo embaixo de uma camada de solo, mas os processos orgânicos que geram líquidos e bolhas de gás metano continuam acontecendo sem monitoramento e a massa de lixo pode se mover.

A história da área em que foi construído o Center Norte começou com a retirada de areia para o uso em construções. “Depois que se formou a cratera foi colocado ali todo tipo de entulho, inclusive lixo, sem nenhum tipo de controle", afirma ao iG Fernando Antônio Medeiros Marinho, professor do Departamento de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP (Poli/USP), que há três meses acompanhou uma empresa que fez medição de gás metano no shopping.

A construção em cima de um lixão ou mesmo sobre um aterro sanitário não é recomendada. "Historicamente nunca se pretendeu construir em cima de lixão ou aterro sanitário. Com as tecnologias atuais temos, nos Estados Unidos, supermercados e shopping centers em cima de aterros sanitários, mas em cima de lixões não se deve construir", explica Marinho.

Para que o local fique seguro é necessário fazer a drenagem do gás e seu monitoramento. "Acredito, sim, que há solução, mas acho difícil implantá-la em menos de 6 meses. O que temos de fazer agora é tomar as rédeas da drenagem deste gás. Não fizemos antes, mas agora temos de fazer. Há, sim, o risco de explosão. Há níveis de metano que podem gerar uma combinação crítica com oxigênio e explodir. Acredito que o shopping deveria estar fechado até que seja controlado o nível de metano dentro das dependências dele."

Leia também : Center Norte corre risco de explodir

Um aterro sanitário é construído com uma série de procedimentos que evitam contaminações, e os líquidos provenientes da matéria orgânica, bem como gases, são drenados durante a vida útil do aterro, que é em geral de 20 anos. Ainda assim, o ideal é construir após 30 anos o terreno estar desativado, e fazer dali um parque ou campo de golfe. Não uma construção que receba centenas de milhares de pessoas por dia.

Outros especialistas ouvidos pelo iG na época da tragédia do Morro do Bumba, em Niterói, no Rio, são da mesma opinião. “Imagine uma massa disforme, sem sustentação, com buracos onde se forma gás. Fica um terreno semelhante a uma esponja,” descreveu à época Maurício Maruca, diretor da Araúna Energia e Gestão Ambiental. 

“Suponhamos que uma residência ou um centro comercial fosse construído em cima de um aterro e que este emanasse o gás. Se o metano se concentrasse em um cômodo, ao acender a luz, o local poderia explodir”, explicou o engenheiro civil geotécnico da Escola Politécnica da USP, Fernando Antonio Medeiros Marinho.

Interdição

A Prefeitura de São Paulo determinou na terça-feira (27) a interrupção de todas as atividades do Shopping Center Norte, na zona norte da capital, em até 72h - como antecipou na segunda-feira com exclusividade o Poder Online do iG . O shopping é o segundo maior de São Paulo em movimentação, sendo que 80 mil pessoas passam no local por dia, segundo a assessoria de imprensa do Center Norte.

Além da ordem de interdição, técnicos da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente estiveram no shopping e aplicaram um auto de multa no valor de R$ 2 milhões pelo não atendimento às exigências da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Histórico

De acordo com a Câmara Municipal de São Paulo, o desentendimento da Cetesb com a administração do shopping Center Norte teve início em 2003, quando foi feita a primeira vistoria no local a pedido da, na época, Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava a responsabilidade por contaminação e o passivo ambiental na cidade.

Os vereadores e técnicos questionavam a eficácia dos respiros instalados para a eliminação do gás metano na área do estacionamento e nas calçadas do lado externo do shopping. O gás é consequente da construção ter sido feita em terreno onde funcionava um depósito de lixo.

A Câmara informa que a Cetesb, em 2004, avaliou que “os poucos dados disponíveis e levantados não possibilitaram uma conclusão definitiva a respeito da contaminação da área”. Outras vistorias feitas em 2010, no entanto, apontaram a área como local de concentração de metano.

* Com reportagem de Alessandro Greco, especial para o iG

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