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Marília Pêra faz elogio ao ridículo em Gloriosa

SÃO PAULO ¿ (Re)conhecida pelo virtuosismo na voz e na interpretação, Marília Pêra surpreende ao cantar completamente desafinada em Gloriosa, do dramaturgo inglês Peter Quilter, no papel de Florence Foster Jenkins, americana rica e completamente sem noção de sua falta de talento para a música.

Ferdinando Martins, especial para o Aplauso Brasil |

Divulgação

Marília Pêra em "Gloriosa"

Ela chegou a ser chamada de a pior cantora do mundo. Seus recitais, porém, eram lotados. Todos e todas queriam vê-la errar feio. Assim, Florence Jenkins tornou-se celebridade e angariou fãs influentes como Cole Porter. Em "Gloriosa", musical dos mestres Charles Möeller e Cláudio Botelho, Marília Pêra enfrenta o desafio de cantar tão errado quanto Florence ¿ justamente ela que se consagrou interpretando Maria Callas, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda e quase todas as cantoras brasileiras que de fato interessam no antológico "Elas por Ela".

"Eu estudei todas as canções muito bem e, a cada apresentação, preciso tomar cuidado para não cantá-las corretamente", diz a atriz. No repertório estão "A Rainha da Noite", de Mozart; "A Risada de Adele", de Strauss; e "A Canção do Sino", de Lackme. A produção é de Sandro Chaim e Claudio Tizo.

Nascida em 1868, desde criança, Florence queria ser cantora lírica. Após a morte do pai, Florence ganhou uma fortuna que lhe permitiu levar uma vida confortável, o que a libertou para a vida artística. Aos 44 anos, fez seu primeiro recital. Em 1934, conheceu o pianista Cosme McMoon (interpretado no musical por Eduardo Galvão) com quem formou uma dupla até o fim da vida. "Com McMoon, Florence viveu uma história de amor, porque os dois se apaixonaram", afirma a atriz. "Ele continua mesmo sabendo que ela canta mal", diz Eduardo.

E como fazer para cantar assim tão ruim? Metódica e disciplinada, Marília desenvolveu uma técnica peculiar. Estudou muito a partitura de todas as canções para, em cena, seguir qualquer caminho, menos o correto. O resultado é diferente a cada apresentação e seu único medo é esgarçar a voz a ponto de não acertar na cena final, onde reaparece cantando divinamente ¿ e afinadíssima ¿ a "Ave Maria" de Gounod. Era assim que ela, Florence, devia se ouvir, diz Marília.

O figurino e o cenário refletem um luxo que hoje não é mais possível.
As roupas, assinadas por Kalma Murtinho, beiram o kitsch e são exageradas como convêm a uma milionária excêntrica. Em sua última apresentação, no Carnegie Hall, em Nova York, Florence apareceu vestida de anjo. O cenário, de Rogério Falcão, vale-se de uma estrutura metálica art decô que permite reconstruir os ambientes por onde ela passava: o Hotel Saymor, o Ritz, a gravadora.

"Gloriosa" é um elogio ao ridículo. Para Marília, Florence não foi uma fracassada ¿ seus admiradores, porém, celebravam o ridículo do qual a cantora (se é que podemos chamá-la assim) não se dava conta. Ao contrário, ela acreditava possuir uma voz poderosa e que um acidente de carro havia feito com que seu fá maior soasse melhor do que antes.
Será que ninguém nunca a alertou? E alguém hoje diz para a Ana Maria Braga que ela fica ridícula com o figurino da Madonna?, brinca a atriz Guida Vianna, que interpreta três papéis no musical.

Serviço ¿ "Gloriosa"
Teatro Procópio Ferreira, São Paulo
Rua Augusta, 2823
Quintas e sábados, às 21h; sextas, às 21h30; domingos, às 18h
Ingressos: R$ 70 (quinta), R$ 80 (sexta e domingo) e R$ 90 (sábado)
Telefone: (11) 3083-4475

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