Mais de 60% das cidades com alagamentos têm ocupação irregular

Pesquisa do IBGE indica que 27,4% dos municípios tiveram inundações. Jardim Romano, em SP, sofreu por meses com enchentes

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Nívea, moradora do Jardim Romano, lembra que só podia andar dentro de casa de botas
As portas da estante da casa de Nívea Mendonça Souza Passos, de 65 anos, não fecham mais. O armário da cozinha só existe pela metade, a parte de baixo foi serrada e jogada fora porque apodreceu. Sem guarda-roupa, as roupas do filho ficam amontoadas em cima de um móvel. Na parede, as marcas de onde a água chegou.

Moradora do Jardim Romano, no extremo leste da capital paulista, Nívea é uma das muitas brasileiras que sofreram com enchentes no último verão. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e divulgada nesta sexta-feira, 27,4% dos municípios declararam ter sofrido inundações e/ou alagamentos em sua área urbana nos últimos cinco anos.

Das 2.274 cidades que afirmaram ter tido estes problemas, 60,7% informaram haver ocupação urbana em áreas inundáveis naturalmente por cursos d’água e 48,1% relataram a existência de áreas urbanas irregulares. É o caso da dona de casa Nívea que, como outras milhares de pessoas, mora na área de várzea do rio Tietê.

O drama dela começou em dezembro de 2009 e se agravou ainda mais pelas chuvas consecutivas de janeiro último, quando a cidade terminou o mês com 480,5mm de chuva, índice que só foi menor que o registrado em 1947, de 481,4mm. Por meses, moradores do Jardim Romano conviveram com esgoto, lama e todas as outras implicações da enchente, como o forte odor e as doenças. “Fiquei mais de um mês com uma gripe forte, tosse, que quase morro”, conta Nívea, que abriu a casa para a reportagem do iG .

Para andar pelos pequenos cômodos, lembra ela, somente com botas. “Até peixe podre entrou aqui dentro. Teve gente que disse que viu cobra; eu não”. Com fala rápida, Nívea aponta para os móveis e emenda um estrago no outro. “A máquina de costura não funciona”. “A pia encheu d´ água, até panela de alumínio joguei fora. Essa porta agora que secou e começou a fechar, mas não tranca mais.”

O pouco que ela conseguiu salvar - fogão, geladeira e sofá – foi porque conseguiu erguer com pedaços de madeira. “A cama molhou toda, tá estralando, mas como a madeira é boa, tá aqui (SIC)”. Os móveis surrados contrastam com a parede recém-pintada de laranja na sala e azul no quintal. A pintura, segundo ela, foi necessária para tirar o cheiro de “lama”. “Foram quase dois meses limpando com creolina para sair todo o cheiro de bueiro.”

O exame e o recomeço

A metros da casa de Nívea, do outro lado da rua Manoel Martim de Melo, mora a dona de casa Valéria Santos, de 35 anos, que, por conta da inundação, ficou três meses hospedada com o marido e os dois filhos gêmeos, Gabriela e Guilherme, de 3 anos, na casa da avó. “Tudo apertado e no sufoco”, conta ela.

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Valéria Santos com os filhos gêmeos Guilherme e Gabriela
Do dia em que a casa inundou, o que mais recorda é do desespero que sentiu. “Você você vê a água entrando e não pode fazer nada, derrubando tudo, molhando tudo...”. Hoje, os móveis que tem, diz, foram doados por parentes. Entre as coisas que lamenta ter perdido, está um exame de Guilherme, que sofre de hiperplasia adrenal congênita, uma doença que altera a produção de hormônios. “Foram oito meses na fila para conseguir o exame e agora é tudo de novo.”

Salvos pelo bote

Na rua de trás de Nívea e Maria, mora a diarista Marlene Aparecida Silva, de 45 anos. No caso dela, a inundação não trouxe somente o risco de perder móveis. Ali, o perigo, diz ela, era perder a vida. “As crianças foram resgatadas de bote pelos bombeiros. Ou a gente saía ou morria afogado”, acredita e aponta para o ombro para mostrar a que altura a água chegou. “Era mulher e criança gritando; uma cena que não quero viver nunca mais”, diz.

Com os R$ 300 que recebe por mês da Prefeitura de São Paulo alugou uma casa em uma rua próxima dali. À noite, dorme no local, já durante o dia volta para o antigo lar, onde tem dois cachorros. “Tudo o que tinha, hoje, não tem, é difícil a vida (SIC)”.

Pavimentação

A pesquisa do IBGE destaca a pavimentação de ruas como uma importante variável “para a ocorrência de eventos de erosão, assoreamentos, alagamentos, inundações e proliferação de problemas de saúde pública”. Entre 2000 e 2008, o número de municípios que informaram possuir ruas pavimentadas saltou de 78,3% para 94,4% do total. Além disso, 40.1% afirmam possuir entre 60 a 80% de ruas pavimentadas no perímetro urbano.

Conforme o levantamento, sistemas de drenagem superficial da água aliados à drenagem subterrânea são um mecanismo de controle dos problemas decorrentes da impermeabilização do solo. Dos 5.256 municípios brasileiros que declararam possuir manejo de águas pluviais, 74,4% informaram utilizar cursos d’água (rios) permanentes como receptores; 16,9%, cursos d’água intermitentes; 2,9%, mar; 10%, lagoas; 20,7%,áreas livres públicas ou particulares e 5,3%, disseram ter outras formas de manejo.

No Jardim Romano a chuva passou, a inundação também, mas o temor continua. “O ar tá bem seco, até precisava dar uma chuvinha, mas eu morro de medo. É só começar a chover mais forte que vem aquela preocupação de perder tudo”, afirma Valéria.

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