Maio de 68 na França: legado de uma tradição revolucionária

O movimento de Maio de 68, com suas manifestações, suas barricadas e suas greves, faz parte de uma tradição revolucionária francesa, afirma o historiador Michel Winock, autor dos livros La fièvre hexagonale: les grandes crises politiques de 1871 à 1968 (sem tradução em português) e O século dos intelectuais, entre outros.

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AFP - O que caracteriza o Maio de 68 francês?

MW - Era, ao mesmo tempo, uma revolta estudantil; um movimento revolucionário dos pequenos grupos que não estavam unificados; era uma crise social com um movimento de greve sem precedentes; era uma crise política; era, além de tudo isso, uma revolução cultural.

Era um momento totalmente extraordinário de liberação da palavra.

Podemos dizer que os franceses tomaram a palavra, como seus avós tomaram a Bastilha, em 1789. Vemos pessoas se expressando sobre todos os assuntos, nas empresas, na Igreja, até mesmo no Exército. Por toda a parte, há uma espécie de movimento de emancipação, de liberação, cujo denominador comum é um movimento antiautoritário.

Estamos na antiga França um pouco tradicional, um pouco autoritária e, lá, tudo voa em estilhaços, há a afirmação do indivíduo.

Foi uma festa de liberação individual, mas, ao mesmo tempo, é um movimento coletivo. Cada um tinha sua solução. É uma das fraquezas do movimento, já que não há um objetivo que possa unificar todas essas pessoas ao redor de uma palavra de ordem.

AFP - O que torna a França diferente dos outros países?

MW - No mundo inteiro, tivemos movimentos estudantis, mas na França, coisa extraordinária, é o conjunto de categorias sociais que é afetado por esse movimento.

Se compararmos com os outros países, perceberemos que a mudança de hábitos aconteceu, no fundo, em todos os países do Ocidente. 1968 é menos uma inovação do que um momento de cristalização, onde todos os problemas da sociedade se acostumam com se condensar em algumas semanas. Além do mais, isso se dá sem barricadas, aí está a especificidade francesa.

AFP - Maio de 68 é parte de uma tradição revolucionária francesa?

MW - Claro. Nossa vida política nasceu da Revolução de 1789. A Revolução de 1789 e dos anos que se seguiram instaurou na vida política o conflito praticamente estrutural. Nós estamos em um país, que vive há dois séculos sobre esse modelo de confronto permanente. Esse confronto nem sempre resulta em barricadas, mas ele é observável em nossa dificuldade de negociar, de encontrar consensos.

Temos, na França, um culto da revolução. Batemos os recordes mundiais de manifestações. Há mais de mil por ano em Paris. Em qual país vemos isso? Em nenhum. É uma herança da história. Na França, o espírito de contestação, de manifestação, está no sangue.

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