Máfia dos caça-níqueis é abalada por guerra interna e operação da Polícia Federal

O submundo que controla o jogo ilegal de caça-níqueis no Rio de Janeiro foi abalado por duas ações espetaculares nos últimos dias. Na quinta (8), o contraventor Rogério Andrade escapou de um atentado à bomba em uma das principais avenidas da capital carioca. Nesta terça-feira (13), a Polícia Federal deflagrou a ¿Operação Alvará¿, de combate a um grupo que explora as máquinas no Rio, Niterói, São Gonçalo e Maricá.

iG Rio de Janeiro |


A Justiça expediu 29 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão. Entre os presos, estão o presidente da escola de samba Unidos de Vila Isabel , Wilson Vieira Alves, conhecido como Moisés, um inspetor da Polícia Civil e sete da Polícia Militar ¿ incluindo um major que comandou a P2 (o serviço reservado de inteligência) do 7º BPM, em São Gonçalo.

O superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro, Ângelo Gioia, afirmou que os policiais cumprem duas funções no esquema: fornecem a segurança e são informantes sobre ações das autoridades. Segundo Gioia, a contravenção só é forte no Estado porque conta com o apoio de agente públicos.

Na Polícia Militar, a corregedoria e o setor de inteligência têm se reunido nos últimos dias para intensificar as ações para identificar e reprimir policiais envolvidos com a máfia de caça-níqueis.

A operação da polícia federal coincidiu com o acirramento da disputa entre grupos que disputam o controle dos caça-níqueis na zona oeste carioca. Se o jogo do bicho não provoca mais conflitos, as máquinas eletrônicas têm provocado a cizânia entre os herdeiros dos velhos banqueiros com execuções à luz do dia.

AE
Veículo do contraventor Rogério Andrade, que explodiu após um atentado na tarde desta quinta-feira

Veículo do contraventor Rogério Andrade explode após atentado

Atentado à moda da máfia italiana

O atentado a bomba no Recreio dos Bandeirantes no fim da manhã desta quinta-feira contra o carro do contraventor Rogério Andrade, 47 anos, na zona oeste carioca, foi o mais recente capítulo sangrento dessa disputa. O filho de dele, Diogo da Silva Andrade, de 17 anos, morreu com a explosão porque, ao contrário do que costuma ocorrer, era ele quem estava dirigindo o veículo blindado no lugar do pai, que tem o hábito de conduzir o próprio carro. A principal hipótese da polícia é que uma bomba, provavelmente o explosivo C4, usado por terroristas no exterior, teria sido colocada embaixo do assento do motorista.

Considerado o mercado mais lucrativo das máquinas eletrônicas no Rio, a zona oeste carioca tem sido palco de enfrentamento dos três principais representantes da nova geração dos barões do jogo do bicho. Reconhecido como o dono dos pontos em Jacarepaguá, Waldemir Paes Garcia, o Maninho, foi executado de dia em 2004. Apontado como seu homem de confiança, Rogério Mesquita, foi morto da mesma forma no ano passado ¿ fuzilado de manhã por motoqueiros na Praça Nossa Senhora da Paz, no coração de Ipanema. Curiosamente, tanto Rogério Andrade, quanto Maninho e Rogério Mesquita sofreram atentados quando saiam de academias de ginástica.

Com exceção de Jacarepaguá, o resto da zona oeste é dividido entre Rogério Andrade e Fernando Iggnácio, herdeiros do espólio do famoso banqueiro do bicho Castor de Andrade, morto em 1997. Na sucessão, o filho de Castor, Paulinho Andrade, foi preterido nos negócios da família pelo primo, Rogério, sobrinho de Castor. Sua insatisfação teria dado origem à disputa. Paulinho acabou morto em 1998. Rogério foi acusado de ser o mandante. Segundo a polícia, o cunhado de Paulinho, Fernando Iggnácio, herdou sua parte no espólio e sua briga.

Atividade mais lucrativa

Ainda nos anos 90, Fernando Iggnácio criou uma empresa que explorava caça-níqueis, que à época não eram proibidos. A exploração das máquinas começou como uma atividade legal, quando os bingos tiveram autorização para funcionar o país. A proibição só ocorreria em 2004, quando a guerra entre as partes ficou mais acirrada. Rogério Andrade começou a fazer-lhe concorrência. Um grupo começou a destruir as máquinas do outro grupo. Logo começaram as mortes. E teriam sido mais 50 na última década. 

Segundo policiais ouvidos pelo iG, a exploração de caça-níqueis é atualmente bem mais lucrativa do que o jogo do bicho, a atividade tradicional da contravenção carioca. Os custos de operação são muito menores, por exemplo. No jogo do bicho é preciso pagar salários de apontadores, tem o custo dos sorteios, da divulgação. No caso das máquinas, o único gasto diário é com a energia elétrica ¿ que é um encargo dos comerciantes. O único trabalho de quem controla caça-níqueis é ir buscar o dinheiro. E ainda é um vício cruzado, associado a outras dependências, em geral o álcool, servido nas biroscas e botequins da cidade, principalmente na zona oeste, área em disputa pelos dois grupos. Para se ter uma dimensão do investimento feito pela contravenção, desde janeiro de 2007 foram apreendidas 45 mil máquinas no Estado.

O jogo do bicho está morrendo. Só gente mais velha ainda aposta. Você não vê alguém mais jovem nos pontos, diz um policial do setor de investigação ouvido pelo iG.

Milícia não se envolve

Segundo a polícia, a exploração de caça-níqueis não é uma atividade ligada ao tráfico de drogas, nem controlada pelas milícias. O deputado Marcelo Freixo, do PSOL, que presidiu a CPI das Milícias na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), afirmou que milícia e jogo do bicho, de fato, não se misturam e apresentam características diferentes em sua organização.

O jogo do bicho tem braços políticos e na polícia, mas a milícia tem representantes diretos na política, é uma forma diferente de atuar. A milícia tem uma restrição de território muito mais forte, eles de fato controlam o cotidiano das pessoas, mas não mexem com caça-níqueis, pelo menos não encontramos indícios disso. Eram gatonet, gás, transporte alternativo... outros tipos de atividade. São duas máfias muito perigosas, com alto poder letal, mas jogo do bicho é uma coisa, milícia é outra, explicou Freixo.

Envolvimento de policiais

Em geral, é difícil encontrar policiais dispostos a falar abertamente sobre a disputa pelo controle de caça-níqueis. Há agentes militares, civis e federais envolvidos na atividade. Quem não participa do esquema muitas vezes tem medo de se posicionar. No momento do atentado contra Rogério Andrade, por exemplo, a escolta do contraventor era feita por cinco PMs, que foram detidos por 72 horas para averiguações. Quem trabalha para bandido, bandido é. A investigação tem que seguir todas as etapas de costume, para apurar tudo, declarou o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame.

O poder de influência dos contraventores não está restrito à esfera policial. Em 2007, foram presas 25 pessoas, entre juízes, desembargadores e procuradores acusados de vender decisões judiciais e informações para os contraventores, por lavagem de dinheiro e corrupção, entre outros crimes. Três delegados federais e outras 14 pessoas, algumas ligadas a casas de bingo e bancas do bicho no Rio, também foram presas. Alguns foram posteriormente soltos. Foi a maior operação de combate à corrupção no Judiciário feita pela Polícia Federal, a "Hurricane".

Na época, foram presos três dos mais conhecidos membros da cúpula do jogo do bicho do Rio: Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães; Aniz Abrahão David, o Anísio; Antônio Petrus Kalil, o Turcão. Segundo o inquérito, muito embora não apareçam formalmente como sócios ou proprietários de empresas que exploram máquinas caça-níqueis, são eles que decidem quem pode exercer a atividade e que autorizam a abertura de novas casas de bingo na região onde estão instalados.

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