Livro relembra "invasão de alienígenas" no Maranhão

Em 1971, rádio estava preocupada com queda de audiência com a TV. Então resolveu simular ataque e acabou invadida pelo Exército

Wilson Lima, iG Maranhão |

Minha família estava desesperada. Mas quando disseram que era uma brincadeira, tivemos uma sensação de alívio e revolta contra a rádio”

Imagine-se na seguinte situação. Você está em casa ou no carro, escutando o programa de rádio de maior audiência local e, de repente, o locutor para tudo e começa a narrar, como se fosse ao vivo, uma invasão alienígena a menos de 60 quilômetros de sua residência. Detalhe: em uma época em que não existia internet nem telefonia celular. O que você faria? Imaginaria que era o final do mundo, ficaria em pânico e pediria perdão por todos os seus pecados (ou não, como diria Caetano Veloso)? Correria para o campo de pouso alienígena para tentar manter contato ou fazer logo amizade com os seres de outro planeta?

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nullMuitos sabem que essa situação foi vivida na costa leste dos Estados Unidos em 1938, durante a transmissão da novela “A Guerra dos Mundos” , de H.G. Welles, transmitida pela Rádio CBS, na voz de Orson Welles. Agora, o que muitos não sabem é que existiu um produto brasileiro que também causou  comoção e pânico. Claro, obedecendo às devidas proporções.

Em 30 de outubro de 1971, a rádio Difusora AM, de São Luís, fez uma edição de “A Guerra dos Mundos”. Na época, os idealizadores do projeto queriam, de um lado, aumentar a audiência da rádio AM, que já enfrentava a televisão. Do outro, provar que mesmo diante de novos veículos, o rádio ainda tinha um forte apelo popular, capaz de causar comoção ou pânico. Essa história agora virou o livro “ Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos ”, cujo lançamento aconteceu nesta quarta-feira na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís.

O programa provocou apenas inquietação na cidade e em vários recantos do interior do Estado, agravamento do estado de saúde de pessoas nervosas e uma série de outros danos que obrigaram as autoridades a tomar providências”, criticou um jornal na época

O programa provocou apenas inquietação na cidade e em vários recantos do interior do Estado, agravamento do estado de saúde de pessoas nervosas e uma série de outros danos que obrigaram as autoridades a tomar providências”, criticou um jornal na época

A invasão alienígena no Maranhão foi narrada dia 30 de outubro de 1971, um sábado pela manhã, dia do aniversário da Difusora AM. O roteiro foi construído pelos profissionais Sérgio Brito, Elvas Ribeiro (conhecido como Parafuso), Manoel José Pereira dos Santos (o Pereirinha), José Branco, Rayol Filho, Bernardo de Almeida, Reynaldo Faray, José Faustino dos Santos (o Jota Alves) e Fernando Melo.

Os alienígenas

Era para ser uma manhã normal. Durante o programa “Paradão – As músicas que você classificou”, que tocava os maiores sucessos na época, entre os quais Gal Costa, Paulo Sérgio, Aguinaldo Timóteo e The Fevers, surge a vinheta da Difusora com uma notícia extraordinária, interrompendo a parada de sucessos: professores norte-americanos avistaram explosões vindas de Marte por volta das 5h da manhã, horário de Brasília. As explosões eram partículas de hidrogênio em direção à Terra. Informação essa que foi “confirmada” pelo professor fictício Mário Cordelini, do Observatório nacional do Rio de Janeiro.

Reprodução
Jornal da época com a notícia sobre a Guerra dos Mundos no Maranhão
No transcorrer do programa, os produtores recorreram às “transmissões” da Rádio Repórter do Rio de Janeiro e afirmaram que estavam em sintonia com a BBC de Londres, dizendo que ambas haviam confirmado a notícia de que objetos voadores não-identificados estavam chegando à região Sudeste.

“Os Estados Unidos são os mais visados”, disse o locutor sobre a chegada das tropas alienígenas. Em meio a “problemas de transmissão” e “muitos ruídos”, os repórteres da Rádio Difusora AM narraram a chegada de objetos desconhecidos chegando a São Luís. Os repórteres conseguiram até trechos dos diálogos das “torres de controle” do Aeroporto Marechal Cunha Machado, na capital maranhense. Os repórteres também "conseguiram" entrevistas com testemunhas que tinham avistado os objetos voadores não identificados.

Um destes objetos tinha um formato de cilindro e pelo menos 30 metros de diâmetro. “Eu nunca vi nada parecido”, dizia o repórter Jota Alves, durante a transmissão da “invasão alienígena” no Maranhão. A rádio Difusora AM teve “problemas” na transmissão, duvidando da integridade física dos repórteres em campo. Até mesmo o diretor da rádio, Fernando Costa, entrou no ar afirmando que “poderemos a qualquer momento sair do ar”. “Agora é necessário que falemos com o senhores. Mais do que nunca devemos ter fé. Fé e coragem”. Ao final do programa, os locutores confirmaram que era tudo uma brincadeira. O programa sobre a “Guerra dos Mundos” durou aproximadamente uma hora.

Pouco tempo depois, a rádio foi invadida pelo exército e tirada do ar por algumas horas.

Os efeitos

Moradores de São Luís que viveram aquele episódio lembram do susto que tomaram na manhã daquele 30 de outubro de 1971. “A gente ficava esperando informações mais concretas. Era complicado. Teve gente que pensou em sair da cidade”, descreveu o comerciante Alberto Silva, de 60 anos. “A minha família estava desesperada. Mas quando disseram que era uma brincadeira, tivemos uma sensação de alívio e revolta contra a rádio”, complementou José Ribamar Lima, aposentado de 71 anos.

No dia seguinte, jornais de São Luís davam como manchete “Ficção Científica alarmou população” e “Fim de Mundo do Bacelar”, em referência a Magno Bacelar, então presidente da Rádio Difusora AM. “O programa provocou apenas inquietação na cidade e em vários recantos do interior do Estado, agravamento do estado de saúde de pessoas nervosas e uma série de outros danos que obrigaram as autoridades a tomar providências”, criticou um jornal na época.

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