Cimi diz que não tem como provar que criança indígena foi morta

Órgão ligado à Igreja Católica afirma, porém, que acampamento de tribo foi destruído por madeireiros e que provas sumiram

Wilson Lima, iG Maranhão |

Uma investigação paralela feita por uma comissão de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Maranhão (OAB-MA), Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) na Terra Indígena Araribóia, na cidade de Arame, a 469 quilômetros de São Luís, afirma que madeireiros destruíram pelo menos quatro acampamentos de indígenas Awá-Guajá, mas eles não conseguiram provas materiais de uma eventual morte de uma criança indígena de 8 anos de idade da tribo, que teria ocorrido em outubro de 2011.

Reprodução/Google Maps
Arame fica a 469 quilômetros de São Luís, capital do Maranhão
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Os resultados desta apuração prévia farão parte de uma representação que será encaminhada na próxima semana ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal no Maranhão. A intenção da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MA, Cimi e SMDH é que esses órgãos intensifiquem não somente as investigações sobre a eventual execução da criança indígena, como também tomem providências contra a ação de madeireiros na Terra Indígena Araribóia.

Segundo o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MA, Luís Antônio Pedrosa, pelo tempo em que o crime supostamente foi cometido dificilmente serão encontrados elementos comprobatórios da morte da criança. No entanto, ele disse que isso não encerra o caso. “A Polícia Federal e o Ministério Público Federal precisam dar seguimento às investigações. Mas achar provas, sem dúvida, é muito difícil. Provavelmente não há mais como achar restos de um corpo na região”, disse.

nullDurante a visita dessa comissão à Arame, os representantes destas entidades sociais conseguiram contato com o indígena Clóvis Guajajara, antes apontado como principal testemunha do caso. Antes autor da denúncia ao Cimi, Guajajara negou novamente ter visto ou ter tido notícia da morte da criança indígena. Apesar disso, ele confirmou à comissão que tinha visto os Awá-Guajá pela última vez no final do ano passado.

“O problema é que após a investigação da Funai, o Clóvis (Guajajara) ficou indignado e com medo. Ele era uma peça chave. Ele está muito assustado e isso é compreensível. Conversando com outros indígenas eles também têm dúvidas. Alguns falam que houve assassinato, outros não. Enquanto não acharmos um corpo, vai ficar muito no ‘disse me disse’, sem dúvida”, complementou Pedrosa. A Funai do Maranhão foi procurada para falar sobre o caso, mas não se pronunciou.

Ainda segundo a comissão, Clóvis está com medo de ser morto por madeireiros após a repercussão do caso. Ele já não caça mais na área onde teria ocorrido o suposto assassinato. Em um vídeo, o indígena revela que foi expulso por madeireiros. “(Os madeireiros) proibiu nós caçar aqui. Nós também não entra aqui mais não. Nós tem medo deles né (sic)”, disse Clóvis Guajajara. A comissão de Direitos Humanos da OAB já vislumbra a possibilidade de transferi-lo para outra área com receio de que ele seja executado por pistoleiros da região.

Os representantes da OAB-MA, Cimi e SMDH detectaram que nos últimos meses os madeireiros construíram várias estradas vicinais dentro da Terra Indígena Arariboia e que os acampamentos montados pelos povos Awá-Guajas foram destruídos. Foram encontrados rastros destes indígenas nômades, como itens de pesca. “Não podemos dizer se houve disputa corporal ou algo parecido. Mas houve a destruição de acampamentos sem dúvida nenhuma”, declarou Pedrosa.

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Eles também encontraram pelo menos 40 toras de madeiras de Ipês, Jatobás, Sapucaias, Copaíbas ao lados das trilhas abertas pelos madeireiros. Os indígenas apontam que nos últimos meses pelo menos 500 árvores foram derrubadas de forma ilegal na região.

Divulgação
Área indígena destruída por madeireiros no interior do Maranhão

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