Desaparecimento de seis jovens nos arredores de Brasília deixa moradores em pânico" / Desaparecimento de seis jovens nos arredores de Brasília deixa moradores em pânico" /

Luziânia, onde o medo habita

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2010/01/26/seis+jovens+de+luziania+go+somem+sem+deixar+pistas+9376511.html target=_topDesaparecimento de seis jovens nos arredores de Brasília deixa moradores em pânico

Fred Raposo, enviado do iG a Luziânia (GO) |

De tão cansada, Sirlene Gomes de Jesus não aguentou caminhar até o sofá da sala. Sentou-se no banquinho de madeira, na varanda de casa. Os pés, inchados dentro da sapatilha, ainda pulsavam. Era uma terça-feira, e fazia três dias que o filho, George Rabelo, de 17 anos, havia desaparecido misteriosamente. Ela voltara, cabisbaixa e insatisfeita, da delegacia policial onde prestara queixa. Aí olhou para o céu. Viu urubus. E veio a ideia: reunir os vizinhos para procurar o corpo do filho no meio do mato que se avizinha à sua casa, nos rincões do Parque Estrela Dalva, bairro pobre de Luziânia, em Goiás.


Sirlene Gomes de Jesus busca o filho de 17 anos / Foto: Marcos Brandão - Ag. ObritoNews

"É onde o povo joga os cachorros mortos para os urubus comerem", relata Sirlene.

Não encontrou nada. Mas o medo que nesse dia invadiu a dona de casa, de 42 anos, espalhou-se como um vírus pelo ar do bairro. Na última sexta-feira, a reportagem do iG percorreu o coração da besta.

Pouco mais de um mês após o sumiço do primeiro dos seis adolescentes (George foi o terceiro), o cenário no bairro é desolador. Encravado a 56 quilômetros de Brasília, o Parque Estrela Dalva concentra cerca de um quarto dos habitantes de Luziânia - quarta maior cidade de Goiás, com 203.800 moradores, segundo contagem de 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ninguém diz. Neste período, a vida do bairro sofreu uma guinada de 180°: as ruas estão vazias, a grama do campo de futebol bate no joelho, as praças viraram pista de caminhada para adultos, os alunos pararam de frequentar as escolas, os pais trancam os filhos em casa quando vão trabalhar.


Parques de Luziânia estão vazios desde os desaparecimentos / Foto: Marcos Brandão - Ag. ObritoNews

"Quem quer perder um filho?" é a pergunta recorrente entre os moradores, repetida, por volta das 10h, por uma senhora que traja blusa branca onde se lê "Mamãe, eu te amo".

Não se sabe quantos policiais estão no caso. Pelo menos uma equipe foi designada para cada caso, garante em entrevista ao iG o promotor Ricardo Rangel de Andrade, da 3ª Promotoria de Justiça da Comarca de Luziânia. "A polícia daqui está acostumada a trabalhar com o flagrante, não com a investigação", explica Rangel.

Nas ruas, alguns moradores comentam que o policiamento aumentou há cerca de duas semanas. Mas reclamam que o clima de insegurança - que respinga pelo centro de Luziânia - permanece. Durante todo o dia, o iG não viu uma viatura policial no bairro. Procurado, o delegado regional do município, José Luiz Martins, não quis comentar o caso.

As ruas de Parque Estrela Dalva se revezam entre as asfaltadas e as de terra batida. Ali, em meio a quatro das nove quadras do bairro, os meninos "sumiram que nem poeira", como descrevem os moradores. Mas cada esquina carrega uma lembrança dos jovens. Cartazes com fotos dos desaparecidos ornamentam os portões das casas. E alguns varais também.

Sete camisas estampadas com a fotografia de Márcio Luiz, de 19 anos, secam ao sol quando sua família recebe a reportagem. A mãe, o pai e a irmã do adolescente - o último a desaparecer, em 22 de janeiro - trajam blusas similares às penduradas no varal. As "camisetas-cartazes" tornaram-se uma espécie de uniforme comum às seis famílias, que as vestem seja em casa ou em manifestações no Congresso Nacional. Mais de 60 foram confeccionadas (por meio de doações ou investimento próprio) apenas com a foto de Márcio.


Pai de Márcio se emociona ao contar a história do filho / Foto: Marcos Brandão - Ag. ObritoNews

"Os vizinhos fecharam a rua quando souberam o que tinha acontecido com ele", lembra o pai do jovem, José Luiz da Silva, um vigilante da prefeitura, de 50 anos.

O medo provocou o fechamento de outra via: a da educação. Com cerca de mil alunos, do 1° ao 5° ano, a Escola Municipal Estrela Dalva IV, uma das maiores do bairro, registrou queda na frequência dos estudantes. A supervisora de turmas Maria Elaine calcula que entre 8% e 10% dos alunos deixaram de ir ao colégio.

"A comunidade está muito assustada", diz a supervisora.

Os desaparecimentos obrigaram as escolas a criarem regras. Graças a elas, um espetáculo curioso desenrola-se aos pés da Dalva IV ao longo da semana. Minutos antes das 11h30, hora que uma buzina marca o fim das aulas matutinas, a tranquila Rua 22 é invadida por uma multidão de familiares, vizinhos e amigos dos pais dos estudantes.

Como num teste de sobrevivência, de bicicleta, a carro ou a pé, alguns adultos saem de mãos dadas com duas, três, quatro crianças. Ninguém fica desacompanhado. A cena dura menos de dez minutos, até que a Rua 22 sossega novamente.

"É uma forma de controlar o alvoroço dos pais", conta Maria Elaine. "Um pega a criança do outro para não deixar ninguém sozinho".


Famílias aguardam estudantes na porta da escola / Foto: Marcos Brandão - Ag. ObritoNews

Preocupação que transborda para além do Parque Estrela Dalva. No centro de Luziânia, o desaparecimento foi tema nas missas da Paróquia de Santa Luzia, uma das mais antigas do país. "O caso deixou a cidade em polvorosa", reporta o pároco Ruy Felix, de 55 anos.

Na cidade de Jardim Ingá, coirmã de Luziânia, uma família relata o sumiço de uma mulher. Liliane Alexandre dos Santos, de 25 anos, desapareceu em 1° de fevereiro. "Fui trabalhar e quando voltei não a encontrei mais em casa", recorda a merendeira Neuza Maria dos Santos, de 47 anos, mãe de Liliane.


Mãe de Liliane dos Santos mostra cartaz com foto da filha / Foto: Marcos Brandão - Ag. ObritoNews

Histórias que engordam uma triste estatística. Na última década, a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), vinculada ao Ministério da Justiça, computou 1.247 casos de crianças e adolescentes desaparecidos no país. Goiás aparece em 10° lugar, com 97 desaparecidos. Tornou-se público que, no ano passado, Luziânia liderou o índice no estado.

Assumidamente incompleto, o cadastro da SEDH deve em breve ser substituído. Em dezembro foi sancionada a lei 12.127/09, que cria o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos. "É um absurdo que tenhamos um cadastro de carros roubados e não, de jovens desaparecidos", disse ao iG a deputada Bel Mesquita (PMDB-PA), autora da lei.

A Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Distrito Federal afirma que planeja estampar as fotos dos jovens de Luziânia nas contas de luz da capital. Outra forma de se divulgar os rostos desaparecidos dos meninos de Parque Estrela Dalva, além das camisetas, dos portões e dos varais.

Leia mais sobre Luziânia

    Leia tudo sobre: violênciaviolência no campo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG