De repente a gente percebe que o dia tem só 24 horas, disse o presidente Luiz Inácio da Silva na manhã deste sábado em sua primeira declaração pública depois da crise de hipertensão que o levou ao hospital, em Recife, na madrugada de quinta-feira.

Usando um uniforme da equipe olímpica brasileira, acompanhado da primeira-dama, Marisa Letícia, e de seu médico particular, Roberto Kalil Filho, Lula culpou o excesso de compromissos pela crise. Mesmo assim, ele disse que pretende continuar viajando o Brasil para inaugurar obras e viabilizar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à presidência.

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Lula fala com jornalistas na saída do Instituto do Caração, em São Paulo

"Agenda não é um problema de campanha, é um problema de compromissos que a gente vai assumindo e vai querendo cumprir", afirmou.

Lula usou uma expressão popular para dizer que sua presença física é fundamental no andamento dos projetos do governo. "Quem engorda o porco é o olho do dono", comparou Lula. "Vamos ter que encontrar um jeito. O problema é que vamos ter que continuar viajando o Brasil porque temos muita coisa para fazer. Este é o último ano e a gente não pode se deixar esmorecer porque se a gente esmorece todo mundo esmorece".

Depois de passar por uma bateria de exames no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, Lula disse estar com a saúde perfeita. "Sou um homem que meço a pressão todo santo dia. Mas chega uma hora que por mais fisicamente preparado que esteja um cidadão, se ele exagera nas horas de trabalho, vai sentir".

Bem humorado, o presidente recorreu a mais uma de suas muitas metáforas para exemplificar a necessidade de exames preventivos periódicos. "Pegue o seu carro e leve na concessionária pensando que tem um probleminha na porta direita. Depois de um tempo lá você vai ver que tem problema em tudo que é lugar. Com o corpo humano é assim. Você vem aqui por um problema de pressão e acaba descobrindo um problema na unha do pé".

Dizendo estar preocupado mas não assustado, Lula admitiu que só foi para o hospital por insistência do médico da presidência, o coronel Cleber Ferreira. "Por mim tomaria um remediozinho e iria para Davos".

Antes de partir para Brasília, onde retomará suas atividades na segunda-feira, Lula disse que continuará fazendo dieta para emagrecer, mas vai melhorar a qualidade da alimentação. O presidente ignorou as perguntas sobre ter voltado a fumar mas a primeira-dama respondeu por ele: "não voltou, não".

Durante quase três horas Lula foi submetido a exames como tomografia arterial, ecocardiograma, ultrassom abdominal e da prótata, análises de sangue e urina. Segundo Kalil os resultados já saíram e mostram um homem saudável.

Lula costuma se submeter a exames anuais entre outubro e dezembro. Este ano ele postergou os exames, segundo ele mesmo disse no final do ano passado, por causa das doenças do vice-presidente, José Alencar, e de Dilma. Marisa também fez a avaliação e está bem.

"O presidente, como vocês sabem, é uma pessoa saudável. Ele teve este problema de hipertesnsivo mas talvez por estafa. Os exames saíram e estão dentro da normalidade", disse Kalil.

O médico não impos restrições de agenda ou qualquer outro tipo a Lula, mas recomendou que o presidente retome as atividades físicas, procure descansar mais e controle a alimentação. Segundo Kalil, nas últimas semanas Lula deixou de fazer suas caminhadas diárias devido à agenda carregada.

O médico revelou que Lula tem histórico familiar de hipertensão. "Ele tem histórico dos irmãos mas não é hipertenso", afirmou. A hereditariedade é uma das principais causas de hipertensão ao lado do consumo excessivo de sal e álcool, obesidade e estresse. Por isso, Lula continuará sendo monitorado.

"A orientação é continuar a vida dele. Não aconteceu nada demais", resumiu o médico do presidente.

Crise de hipertensão

Lula descansou desde quinta-feira em sua residência, após ter um pico de pressão arterial (18 por 12) na quarta-feira à noite, no Recife. Na quinta, ele já apresentava pressão de 11 por 8, de acordo com a assessoria.

A crise de hipertensão fez o presidente cancelar sua agenda de compromissos até domingo. O problema de saúde também levou ao cancelamento da viagem que Lula faria à Suíça para participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde receberia o prêmio "Estadista Global".

Nenhum compromisso oficial foi marcado e está mantida a decisão de retomar a agenda oficial do presidente na segunda-feira. A primeira previsão de retomada da programação de Lula é na segunda-feira, às 10h, na reabertura dos trabalhos do Judiciário, no Supremo Tribunal Federal (STF).

Na semana que vem, o presidente Lula já tem viagem prevista para três Estados, a partir da quarta-feira: Rio de Janeiro, São Paulo (na quarta-feira) e Rio Grande do Sul (na sexta-feira).

AE

Lula durante evento na quarta-feira no Recife

Agenda lotada

Lula vinha há dias reclamando de cansaço. Para os médicos, a crise hipertensiva é um quadro típico de estresse puxado por uma pesada agenda oficial. Foram 12 cidades percorridas nos últimos 14 dias e mais de 30 compromissos. Lula sofre de insônia e, quando despacha de Brasília, trabalha em média 12 horas por dia. Não raro, transfere seu gabinete para casa, o Palácio da Alvorada.

Nas viagens de avião - apesar da cama de casal em uma área privativa da aeronave -, dificilmente consegue um repouso tranquilo. O presidente tem medo de voar. Cerimônias, jantares, inaugurações Brasil afora e atividades com o PT acabaram resultando em uma noite no hospital sob observação e à base de diuréticos.

Dilma ressaltou que as horas que antecederam o mal-estar do presidente tinham sido muito intensas. [Na segunda-feira, 25,] fomos primeiro para o Rio de Janeiro, onde cumprimos toda a agenda de visitas às obras do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento]. Depois fomos ao aniversário de Dona Amélia, mãe do Chico Buarque, e a uma festa com o governador Sérgio Cabral. Depois voltamos a Brasília, onde chegamos às 2h30 da madrugada. No outro dia, viajamos para o Rio Grande do Sul, onde participamos do Fórum Social Mundial. Depois fomos para Pernambuco, onde tivemos uma agenda bem pesada. O presidente ia para a Suíça, mas resolveu cancelar as viagem depois que passou mal.

(*com informações da Reuters e Agência Estado)

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