Lula faz aposta arriscada em Dilma Rousseff

BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está colocando em risco as chances do PT na eleição presidencial do ano que vem ao manter seu apoio à candidatura de Dilma Rousseff apesar de sua luta contra o câncer.

Reuters |

Lula apoiou publicamente a ministra-chefe da Casa Civil após sua internação na semana passada, quando ela sentiu fortes dores relacionadas ao tratamento quimioterápico, e tem rechaçado qualquer conversa sobre candidaturas alternativas pelo PT.

"Ele não quer um debate público sobre isso. É uma questão delicada", disse à Reuters o governador da Bahia, Jacques Wagner.

Apesar da imagem política excessivamente formal da ministra, Lula está convencido de suas capacidades gerenciais e acredita que o Brasil esteja preparado para uma mulher na Presidência, depois de ele ter se tornado o primeiro líder brasileiro proveniente da classe trabalhadora.

Mas ela já estava atrás nas pesquisas e o seu linfoma somou-se às dúvidas sobre se a ministra é capaz de vencer as eleições e continuar com as políticas de Lula que reduziram a pobreza, agradaram os investidores e permitiram um forte crescimento por vários anos antes de a crise econômica global forçar uma desaceleração.

A 16 meses das eleições, analistas dizem que Lula ainda tem tempo para promover um candidato alternativo para enfrentar o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), pré-candidato que está à frente de Dilma cerca de 25 pontos nas pesquisas.

Admitir essa possibilidade, entretanto, poderia enfraquecer o PT. Além disso, não há alternativas óbvias dentro do partido, depois que uma série de escândalos de corrupção nos últimos anos abalou a reputação de estrelas ascendentes, como os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci.

Isso significa que seria difícil substituir Dilma com rapidez, se ela tiver de abandonar a campanha perto do final da disputa.

"Não se tira um candidato da cartola. Lula vem preparando Dilma há dois anos", disse o cientista político Ricardo Ribeiro, analista da consultora MCM. "Sem nenhum plano B, é uma estratégia arriscada."

O nome de Palocci reapareceu como possível candidato depois de a doença da ministra ter se tornado pública, mas ele ainda está sendo investigado por sua participação no escândalo da violação do extrato bancário do caseiro Francelino Santos Costa.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, era visto como possível candidato antes de Lula apoiar Dilma, mas ele não tem muito apoio dentro do PT e o ministro da Educação, Fernando Haddad, cujo nome também foi mencionado, também tem pouca influência no partido.

TERCEIRO MANDATO?

Os médicos dizem que Dilma tem 90 por cento de chance de se recuperar por completo e seus partidários afirmam que uma forte votação por compaixão poderia ajudá-la a vencer a eleição. Analistas dizem, no entanto, que é incerto como os eleitores reagirão aos problemas de saúde.

Muitos ainda se lembram do presidente Tancredo Neves, que morreu em 1985 de uma doença intestinal antes de assumir o poder como o primeiro líder democraticamente eleito no Brasil após 21 anos de governo militar.

Muito popular, Lula não pode concorrer a um terceiro mandato consecutivo e não mostra interesse em mudar a lei.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, disse recentemente que qualquer tentativa de modificar a constituição para permitir um terceiro mandato provavelmente seria derrubada pela corte.

Ainda assim, o deputado Jackson Barreto --do PMDB, que faz parte da coalizão de governo-- tenta apresentar uma proposta de um referendo em setembro para uma emenda constitucional. O projeto, no entanto, ainda tem diversos obstáculos a superar antes de poder ser votado pela Câmara dos Deputados.

O apoio convicto de Lula à candidatura de Dilma parece estar lhe custando certo capital político, pois o PMDB exige mais em troca de apoio a uma candidata enfraquecida.

O partido, o maior dentro da coalizão de Lula, afirma que, em troca do apoio a Dilma, quer que o PT se retire das disputas eleitorais em ao menos 10 dos 26 Estados na eleição de outubro de 2010, numa iniciativa que aumentaria as chances dos candidatos do PMDB.

O PMDB também deve ter voz ativa na CPI da Petrobras, estatal em que Dilma é presidente do conselho.

Líderes peemedebistas no Senado exigem um cargo importante para o partido na Petrobras como preço pelo apoio ao governo na CPI, de acordo com reportagens da mídia.

"No Congresso, a ansiedade (sobre a candidatura de Dilma) muito provavelmente vai se traduzir em um PMDB um pouco menos leal", disse Christopher Garman, analista para América Latina da consultoria Eurasia Groups, em um relatório.

Tudo isso não é favorável à candidatura da ministra. Mas analistas dizem que o julgamento final ainda depende da ex-militante de esquerda, que foi torturada na prisão durante o governo militar.

"Se ela se recuperar, sua imagem de lutadora poderá ser reforçada", afirmou Ribeiro. "Ela pode ficar ainda mais forte."

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