Por Terry Wade NAÇÕES UNIDAS (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva exigiu nesta quarta-feira um papel maior para as grandes nações em desenvolvimento nas questões globais e, ao mesmo tempo, pediu aos países ricos que façam mais para incentivar o livre comércio e lutar contra as mudanças climáticas.

Fazendo o tradicional discurso inaugural da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Lula disse que os países desenvolvidos devem estabelecer metas mais ambiciosas de cortes de gases do efeito estufa e forjar até dezembro um pacto para conter o aquecimento global. Ele ainda encorajou uma conclusão rápida da Rodada de Doha.

Lula assumiu posição de destaque nesta semana na ONU por conta de seu papel fundamental na mediação da crise em Honduras, e será um negociador de peso no encontro do G20, que inclui países desenvolvidos e emergentes, na quinta-feira para discutir maneiras de estabilizar a economia global.

"Uma maneira insensata de pensar e agir, que dominou o mundo durante décadas, foi à bancarrota", disse Lula sobre os modelos econômicos que desencorajam a regulamentação.

Ele culpou os mercados financeiros desregulamentados por causarem a crise global e disse que "não é justo que o preço da especulação desenfreada seja pago pelos trabalhadores e pelos países pobres ou em desenvolvimento."

O Brasil afirma que dar mais voz aos países em desenvolvimento em organismos como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) ajudaria a consertar a economia global e refletir a importância crescente dos mercados emergentes, como China, Índia, Rússia e o próprio Brasil.

Mesmo com a busca de uma maior influência, a diplomacia brasileira poderia frustrar as potências ocidentais. Lula se negou a denunciar o programa nuclear iraniano e disse que quer vínculos comerciais mais estreitos com Teerã.

O Brasil também pleiteia uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

"Precisamos de instituições para o século 21, não aquelas criadas após a Segunda Guerra Mundial", disse ele.

ESTADO E CLIMA

Quanto à saída do Brasil da crise, Lula disse que o país não fez mágica e sim preservou o sistema financeiro da especulação e reduziu a vulnerabilidade externa, além de adotar medidas anticíclicas.

Lula voltou a defender a presença do Estado na economia, como atestou a crise dos mercados em que as nações tiveram que atuar fortemente para sanar as distorções. Também se posicionou a favor das políticas sociais e contra a privatização dos serviços públicos.

"(O que faliu) foi a doutrina absurda de que os mercados podiam auto-regular-se, dispensando qualquer intervenção do Estado, considerado por muitos um mero estorvo", disse.

O presidente brasileiro voltou a cobrar uma atuação maior dos países ricos no combate às mudanças climáticas.

"Todos os países devem empenhar-se em realizar ações para reverter o aquecimento global", afirmou, ao dizer que o Brasil está cumprindo sua parte ao aprovar um plano que prevê redução de 80 por cento no desmatamento da Amazônia até 2020, além de ter fixado regra para diminuição das emissões de carbono.

E prometeu que, mesmo com a descoberta do pré-sal, "o Brasil não renunciará à agenda ambiental para ser apenas um gigante do petróleo".

MEDIADOR DA CRISE EM HONDURAS

No único momento em que arrancou aplausos da platéia formada por chefes de governo e de Estado, o presidente defendeu a volta ao poder do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, abrigado desde segunda-feira na embaixada do Brasil na capital hondurenha. Zelaya foi deposto por um golpe de Estado em 28 de junho.

"A comunidade internacional exige que Zelaya reassuma imediatamente a Presidência de seu país."

Nesta semana, o Brasil solicitou ao Conselho de Segurança uma reunião urgente para discutir a crise em Honduras. Lula disse que também irá discutir o assunto com o presidente norte-americano, Barack Obama.

Agora, a embaixada é palco de uma tensa disputa entre os partidários de Zelaya e forças de segurança sob a direção do governo de facto que o destituiu.

O surgimento do Brasil como principal mediador da crise ratificou o que muitos veem como uma declinante influência dos EUA em uma América Latina que se inclinou para a esquerda nesta década.

Lula compartilha raízes políticas com presidentes esquerdistas latino-americanos, onde o Brasil se viu há tempos como o líder natural.

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