SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu nesta sexta-feira que as Farc abandonem a luta armada e passem a atuar pela via democrática. Ele alertou que qualquer esforço brasileiro na mediação entre a guerrilha e o governo da Colômbia teria de passar por um aval de Bogotá. Lula deu as declarações após encontrar-se em São Paulo com a ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt, mantida refém pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia por mais de seis anos e resgatada em julho deste ano.

"O Brasil tem uma cultura, o Brasil não move um dedo sem que haja concordância do governo institucional colombiano", disse Lula. "Qualquer contribuição (do Brasil) passa pela libertação de todos os sequestrados."

Lula deu o exemplo de sua própria ascensão ao poder e a de outros líderes sul-americanos, como o indígena Evo Morales na Bolívia, para fazer um apelo às Farc.

"Eleição não se ganha sequestrando pessoas. A grande chance que as Farc têm um dia de governar a Colômbia é pela via democrática", disse Lula, acrescentando que há cerca de 20 anos "ninguém poderia imaginar" um metalúrgico presidente do Brasil e um índio eleito presidente da Bolívia.

Betancourt afirmou que veio ao Brasil para agradecer a Lula, que, segundo ela, foi um dos poucos líderes a tratar do assunto dos sequestrados quando a maioria considerava esse tema "politicamente incorreto".

"Eu me lembro que estava na selva e ouvia o presidente Lula dizendo que estava disposto a que o território do Brasil ficasse à disposição para a realização de uma reunião entre o governo do presidente (Alvaro) Uribe e as Farc", afirmou ela.

A ex-senadora lembrou que 2008 foi "um ano negro para as Farc". Neste ano, a guerrilha teve de enfrentar a morte de seu fundador, Manuel Marulanda, além de outros dirigentes, e viu sua refém mais importante ser resgatada pelas Forças Colombianas numa operação que desmoralizou as Farc.

"Sinceramente espero que dentro desse ano terrível (para as Farc) se abra a possibilidade de uma reflexão. Uma reflexão no sentido do que disse o presidente Lula: não há razão política, não há justificativa política para manter nenhum ser humano sequestrado", disse Betancourt, que agradeceu a Lula não só pelo que o presidente fez por ela mas também pelo que ele "ainda fará" a quem chamou de seus "irmãos sequestrados".

Betancourt está no Brasil como parte de uma viagem pela América do Sul em busca de apoio pela libertação dos demais reféns das Farc. Na Argentina, ela encontrou-se com a presidente Cristina Kirchner e com a cantora Madonna.

(Reportagem de Eduardo Simões)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.