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Lula diz que presença de Exército em obra é injustificável

RIO DE JANEIRO - Em meio ainda a um clima de consternação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na segunda-feira de uma reunião de quase uma hora, no Palácio da Guanabara, com cinco familiares dos rapazes mortos pelo tráfico, após serem entregues a gangues inimigas por militares que tomavam conta das obras do Exército no Morro da Providência.

Agência Estado |

AE
Familiares deixam o encontro com Lula

Lula chegou a desabafar que considera injustificável a presença de homens do Exército em uma obra terceirizada, já que os trabalhadores ali empregados são da comunidade e os únicos militares seriam dois engenheiros. O presidente decidiu receber os familiares dos rapazes para ouvir o outro lado da história, já que tomou conhecimento da maior parte do caso apenas pelo Ministério da Defesa.

Na avaliação do presidente, são muito diferentes as versões sobre a forma como os jovens foram abordados, presos e entregues para as facções rivais. Lula defendeu que o julgamento dos 11 envolvidos na morte dos jovens seja feito pela Justiça Civil, e não na Justiça Militar. O ministro Nelson Jobim endossa a mesma tese, o que é contrário ao entendimento dos militares.

Na conversa com as famílias, o presidente Lula reiterou a disposição do governo em pagar uma indenização aos familiares das vítimas. Mas, apesar do discurso aparentemente contrário à atuação das Forças Armadas no Morro da Providência, o presidente Lula concordou com o fato de o Ministério da Defesa ter pedido à Advocacia-Geral da União (AGU) para entrar com recurso na Justiça a fim de garantir que os militares permaneçam na favela, dando proteção ao pessoal que trabalha na obra e ao material. Até quinta-feira, a Justiça decide se a redução dos militares foi suficiente ou se devem deixar definitivamente o morro.

Nos questionamentos sobre a presença do Exército na área, o presidente Lula lembrou que não tem policiamento ostensivo em nenhuma das obras do PAC. Com isso, na sua avaliação, não haveria motivos, também, para ter soldados do Exército fazendo segurança ostensiva naquela obra. As obras no Morro da Providência não estão incluídas no PAC - elas fazem parte do Projeto Cimento Social. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

Militares devem culpar tenente

Os advogados de 10 dos 11 militares presos devem divulgar, nesta terça-feira, um manifesto com um pedido de desculpas à população. No texto, eles acusam o segundo-tenente Vinicius Ghidetti de ser o único responsável pelo crime. A defesa do oficial rebate essa versão, alegando que pelo menos outros fatores o levaram a deixar os rapazes dentro do Morro da Mineira, na zona norte.

Além de culparem Ghidetti, os militares pedem à população que não faça julgamentos precipitados. Dizem que o sofrimento no cárcere é grande, mas que não se compara à dor das famílias dos três rapazes, que naquele fatídico dia tiveram suas vidas ceifadas por uma atitude inconcebível. Os militares concluem o terceiro parágrafo do manifesto com uma crítica ao tenente: não é o que se espera de um oficial, que naquele momento equiparou-se àqueles que torturaram e mataram estes jovens.

Os militares concluem o texto de uma página dizendo terem certeza de que a Justiça está sendo feita e, ao final, o único responsável pelo crime e pela prisão deles será responsabilizado na forma da lei - dos homens e de Deus. Pedem, por fim, a compreensão de todos e que acreditem em nossa inocência, na Justiça e no Exército Brasileiro.

Desde que foram presos, essa é a primeira manifestação pública dos militares sobre o caso. Até segunda-feira à tarde, quatro deles já haviam assinado o manifesto - o sargento Leandro Maia Bueno e os soldados Rafael Cunha da Costa Sá, Fabiano Elói dos Santos e Júlio Almeida Ré. Os nomes dos outros seis deveriam ser incluídos hoje.  

Jobim no Rio

Nesta terça-feira, Jobim despacha na sede do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, onde terá reuniões com o Comandante do Exército, General Enzo Peri, e com oficiais responsáveis pelas obras no Morro da Providência. 
O objetivo, segundo informações da assessoria do ministro, é continuar os estudos para a elaboração de uma proposta para a continuidade das obras a ser apresentada à Justiça até o dia 26 de junho. As reuniões, segundo a assessoria, não serão conclusivas, e não haverá entrevista à imprensa.  

O caso

Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Na segunda-feira, após o enterro dos três jovens, moradores do Morro da Providência protestaram em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML). Durante a manifestação, policiais do Exército entraram em confronto com os moradores, atirando bombas de efeito moral.

Força Nacional

A Força Nacional de Segurança Pública foi criada em junho de 2004 pelo Ministério da Justiça, para atuar nos Estados em situações emergenciais. Ela é comandada pela Secretaria Nacional de Segurança e reúne os melhores policiais dos Estados e da Polícia Federal.

Os integrantes da tropa, porém, não deixam de atuar nas instituições de origem. Após um treinamento de duas semanas, os policiais retornam para trabalhar em seus Estados e permanecem em prontidão para uma possível convocação. Depois de encerradas as operações especiais, são dispensados e voltam aos seus Estados.

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