Lula: a arte de governar é fazer as coisas simples

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu hoje uma receita simples sobre como governar aos seus prováveis sucessores no cargo, a pré-candidata do PT e ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o governador de São Paulo, José Serra, nome mais cotado para disputar as eleições presidenciais pelo PSDB. Em discurso durante a inauguração do novo complexo industrial da Case New Holland, em Sorocaba, no interior do São Paulo, ao lado de Dilma e Serra, Lula disse que política, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não é uma coisa complicada.

Agência Estado |

"Política é a única coisa que a gente não aprende na universidade. Você aprende a ser médico na universidade, cientista, você aprende até a ser cientista político, mas político é difícil", afirmou.

"A arte de governar é fazer exatamente as coisas simples. A arte da boa governança é você fazer o óbvio. Vocês vão perceber que no dia a dia as coisas mais corretas que nós fazemos é aquilo que parece o óbvio, mas as pessoas não fazem", continuou. "Quando as pessoas pensam em fazer a coisa muito difícil, essa pessoa não deveria ser política. Deveria ser cientista e tentar inventar qualquer coisa porque na política a gente não inventa."

Como exemplo das ações que são óbvias, mas que não foram adotadas antes de seu governo, Lula citou que o volume total de crédito disponibilizado pelo sistema bancário era de R$ 381 bilhões em março de 2003 no País e hoje é de R$ 1,410 trilhão. "Era óbvio que num país de economia capitalista em que você não tem capital, financiamento e crédito as coisas não andam", afirmou. "Eu estou dizendo coisas óbvias, que era para terem sido feitas há muito tempo, e que não foram porque o óbvio é difícil de fazer. O fácil de fazer é você inventar aquilo que você sabe que não vai fazer", disse Lula.

Em referência à unidade da empresa, fechada em 2001 e reinaugurada neste ano, Lula defendeu que a abertura de uma fábrica é como o nascimento de uma criança. "Nascer é a primeira coisa, mas depois que nasce é preciso cuidar para que essa criança estude, sobreviva e se transforme num ser humano altamente produtivo para esse País. Uma empresa como essa, se nós não dermos sequência ao que vem acontecendo no Brasil para que essa empresa possa vender mais no mercado interno e exportar mais, essa empresa, da mesma forma que abriu, fecha as portas, como já aconteceu em tantos outros momentos da história do nosso País", afirmou.

"Estou convencido de que estamos vivendo momento ímpar na história de nosso País. Certamente eu poderia chamar a atenção dos jovens, com menos de 30 anos, mas também dos mais velhos, da minha geração, para que toda vez que a gente analise a economia brasileira a gente lembre o que aconteceu nesse País nos últimos 30 anos pra gente saber de onde partimos e onde pretendemos chegar. Depois de muitas décadas perdidas, o Brasil tem a oportunidade de se transformar definitivamente numa grande economia", declarou.

O corintiano

O presidente comparou a situação do Brasil antes de seu governo à do Corinthians, que perdeu para o Santos por 2 a 1 no último domingo em partida pelo Campeonato Paulista. "Eu não escondo de ninguém que sou corintiano, mas o Brasil estava naquela época como o time do Corinthians está hoje, pesado, assustado com a leveza daquela molecada do Santos. A leveza e a irreverência - eram todos meninos desaforados. Todos", disse, sob risos dos presentes à cerimônia. "Pois bem, o Brasil era mais ou menos daquele jeito. O Brasil vivia assustado", avaliou.

Para ilustrar a situação, o presidente disse que sempre ficava desolado quando ouvia uma conversa de economistas sobre a situação brasileira, e fez referências de forma específica a Dilma e Serra, a quem chamou de economistas, embora o governador recuse o título e apenas Dilma tenha concluído o curso de ciências econômicas. "Quando eu ia a um debate com economistas eu saía de lá arrasado. Porque o País tinha acabado, quebrado. Eu saía e dizia, meu Deus do céu, essas pessoas querem que eu seja candidato à Presidência da República", contou.

Ainda fazendo referência às ações do governo federal durante a crise, Lula disse ter sugerido ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que tivesse bancos públicos para induzir o crescimento e fornecer crédito durante a crise. "Todos nós sabemos que foram os bancos públicos que nos ajudaram a vencer a crise. Não vacilei e o Grupo Fiat sabe que eu comprei o banco do Serra", disse, em referência à compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. "E se tivesse mais banco para vender eu iria comprar para transformar o Banco do Brasil no banco mais importante desse País para financiar o crédito."

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