Luis Fernando Verissimo estreia no romance policial com "Os Espiões"

Em entrevista ao iG, escritor gaúcho comenta gênese da história e aponta suas preferências como leitor

Cadão Volpato, iG São Paulo |

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Luis Fernando Verissimo transportou a intriga de espionagem para o interior gaúcho

Luis Fernando Verissimo é uma espécie de unanimidade da crônica brasileira, no que ela tem de mais sublime. É capaz de escrever sobre tudo – de política à vida conjugal – com elegância e humor, dois atributos que não andam necessariamente juntos. O cronista Verissimo é um homem de frases e parágrafos aparentemente simples e inofensivos. Mas ele não engana ninguém: sente-se em casa com as palavras, e observa o mundo a partir dos pampas com um olhar cosmopolita, universal, e uma enorme capacidade para despertar o riso.

Já o romancista Verissimo sofre alguma resistência da crítica, que tem a ver com a superfície do que ele escreve. Na aparência, o cronista de frases e parágrafos límpidos não teria o físico dostoievsquiano – muito na moda entre as novas gerações – necessário para mergulhar fundo nas questões humanas. Ou seja, seria difícil levar o humorista a sério.

Isso é uma bobagem. Basta ler o novo "Os Espiões" (Alfaguara), primeiro romance policial do autor,  que se passa  no interior do Rio Grande do Sul, no lugar dos clássicos cenários de intriga internacional. Com a leveza e a simplicidade enganadora de sempre.

Na entrevista abaixo, Verissimo, até pouco tempo um entusiasta do fax, explica por email o nascimento de "Os Espiões", entre outras questões literárias.

iG: "Os Espiões" não foi feito por encomenda. Em que ele se diferencia dos seus outros livros feitos a partir de um pedido da editora?
Luis Fernando Verissimo:
A gênese de um livro não interessa muito, interessa o resultado. Quando a editora dá o tema é um desafio a mais, mas de qualquer modo você é quem decide como vai desenvolvê-lo. A "encomenda" não vem com instruções.

Como é que este nasceu? O impulso inicial deve ter sido importante.
Luis Fernando Verissimo: 
Eu tinha a primeira frase e uma vaga ideia do que queria, mas a trama foi nascendo à medida que eu escrevia.O impulso inicial foi a vontade de fazer um livro de espionagem que não fosse nem uma paródia nem um "thriller" de verdade. Saiu um livro de espionagem que se passa no interior do Rio Grande do Sul em vez de num cenário de intriga internacional, o que já define a sua ambição.

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Detalhe da capa do livro "Os Espiões"

iG: A história literária da família pesa na hora de escrever?
Luis Fernando Verissimo:  Não. Conscientemente, não.

iG: Você sente algum esnobismo da crítica em relação à sua literatura, ao fato de ela se relacionar tão bem com o entretenimento?
Luis Fernando Verissimo: 
Talvez "esnobismo" não seja a palavra certa. Há uma tendência a rotular o escritor, e aí tanto escritor quanto crítico têm dificuldade para escapar do rótulo. Mas não me preocupo muito com isso.

iG: Pertence ao DNA familiar essa habilidade para escrever frases tão definitivas quanto a que abre "Os Espiões" ("Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer")?
Luis Fernando Verissimo:  A frase foi o ponto de partida do livro, literal e metaforicamente. E ela não é original. Os mais velhos a identificarão como uma paráfrase do "tornei-me um ébrio", do Vicente Celestino. O que só mostra a minha idade.

iG: Há nele uma discussão engraçada sobre o papel da pontuação nos livros, bem como sobre a forma de contar histórias e outras, também artísticas. São questões que você também encara como escritor?
Luis Fernando Verissimo:  Todos os meus romances são, de um jeito ou de outro, sobre a relação do narrador com a narrativa e com os personagens, a velha questão do Flaubert sobre o lugar do autor no texto. Como escrevo sempre na primeira pessoa, um cacoete de cronista,  posso comentar o que é narrado e brincar com o poder do autor e com as possibilidades da linguagem. Não sei se isto é compreendido, mas a intenção é esta. 

iG: Como é o leitor Verissimo? Afundado numa poltrona, junto a uma lareira crepitante? O que você gosta de ler? John Le Carré, tão citado no livro? Rubem Fonseca? Raymond Chandler? Miguel de Unamuno? Sylvia Plath? Ou nenhum dos anteriores?
Luis Fernando Verissimo: 
Leio mais na cama, antes de dormir ou de manhã, antes de levantar. Tenho lido muito pouco por prazer, mais para me informar. Jornais e revistas, principalmente. Mas no momento estou conseguindo ler, com muito prazer, o último livro do Roberto Calasso, "Tiepolo pink", sobre pintura.

iG: Conhece e aprecia as novas gerações de escritores brasileiros? A água do Rio Grande seria a responsável por tantos (e alguns muito bons) escritores gaúchos?
Luis Fernando Verissimo:  Conheço pouco os novos escritores. Sei que tem gente muito boa, mas estou desatualizado, infelizmente. O Rio Grande do Sul tem, mesmo, uma tradição de excelentes escritores. Talvez seja o chimarrão.

iG: Acha que seu pai, Erico, é suficientemente lido e apreciado no Brasil?
Luis Fernando Verissimo: 
Os livros do pai, reeditados pela Companhia das Letras, têm uma venda regular. Alguns mais do que outros, como "Olhai os Lírios do campo", que continua popular. Acho que houve uma reavaliação da obra dele, da importância do que ele fez. Um caso em que o rótulo foi abandonado.

iG: E qual é o seu melhor escritor brasileiro?
Luis Fernando Verissimo: 
Para mim, o melhor escritor brasileiro, hoje, é o Moacyr Scliar. Também gosto muito do Milton Hatoum.

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