PARATY ¿ Diretora mais celebrada da nova geração do cinema argentino, a cineasta Lucrecia Martel está na Flip para participar de uma das mesas de debate, ao lado do escritor gaúcho João Gilberto Noll, e para ministrar a tradicional oficina literária da festa, nesta edição dedicada ao roteiro cinematográfico. É a intenção de trazer a interdisciplinaridade para a festa, promovendo um diálogo entre diversos campos. Como era de se esperar, a sétima arte eclipsou a literatura e foi o principal assunto da conversa que Martel teve com a imprensa nesta quinta-feira (03).

Com três filmes no currículo ¿ O Pântano, A Menina Santa e, o mais recente deles, La Mujer Sin Cabeza, que participou do último Festival de Cannes e tem pré-estréia em Paraty ¿, Martel esclareceu a idéia de que há uma nova onda no cinema argentino. Ao contrário do que a expressão possa dar a entender, não há nada organizado na farta produção de cinema no país vizinho nem diálogo direto entre o trabalho de diretores que têm recebido reconhecimento internacional nos últimos anos, como Pablo Trapero, Daniel Burmán e ela própria.

Depois da metade da década de 1990, começaram a aparecer bons novos diretores, mais ou menos da mesma geração. Mas isso foi uma resposta ao vazio cinematográfico que ocorreu depois do governo militar, esse processo tão violento contra o corpo que é a ditadura, explicou. Isso não significa que haja  uma nova onda, nem nenhuma idéia de movimento, é mais uma coincidência de diretores.

Nascida e criada em Salta, no norte da Argentina, região sem tradição cineclubista, Martel opta por filmar histórias intimistas, sem tanta ênfase nos diálogos, pontuadas por relações disfuncionais. A predominância de personagens femininas em seus filmes é justificada, segundo ela, por suas próprias experiências, tanto que sua maior escola, alega, não foram as salas de cinema, mas as histórias fantásticas do cotidiano que escutava quando criança.

Na minha visão de criança, as casas eram cheias de mães e de filhos, os homens eram apenas figuras tangentes. As instituições familiares, garantiu, estão longe de ser um paraíso, como seus filmes já davam a entender, e devem enfrentar um processo de falência. As famílias podem ser um inferno. Mostram o amor, tudo muito bonito, mas também nos aproximam desde muito cedo de coisas ruins, como a corrupção, a inveja. Por isso sua ausência é um problema tão grande, a decadência sempre tem algo positivo.

Crítica e extraterrestres

Apesar de contar com o apoio do INCAA ¿ Instituto Nacional de Cinema e Artes Visuais, que rege e financia o setor na Argentina, Martel frisou que é difícil fazer cinema independente em qualquer lugar do mundo. Também rechaçou a parcela da imprensa de seu país que ataca diretores que investem em uma carreira autoral. Esses jornalistas afirmam que é apenas uma manobra para ganhar destaque em festivais internacionais. É uma idéia miserável. Na verdade, o reconhecimento no exterior acaba possibilitando o financiamento de novos filmes, mas não é a idéia primeira.

A partir daí, a diretora aproveitou para criticar os órgãos governamentais argentinos e a nefasta estrutura de distribuição de filmes. Por isso mesmo a base de um país é um instituto que gerencie o negócio, porque o mercado é que não vai fazer isso. Um filme hollywoodiano para crianças ocupa quatro salas de um multiplex, duas com cópias dubladas e duas legendadas. Em que momento vai haver espaço para outros filmes, até mesmo o cinema europeu? É preciso fazer uma negociação mais forte com o circuito.

O próximo projeto de Martel será, contrastando com seus trabalhos anteriores, a adaptação para as telas de El Eternauta, história em quadrinhos de ficção científica muito popular na Argentina, que retrata uma invasão extraterrestre em Buenos Aires. A cineasta explicou que a fama da comic escrita por Héctor Germán é tão grande em seu país quanto o Homem-Aranha, por isso a tentação de assumir a direção foi muito grande, inclusive porque se declara uma fã da série Alien.

O que me chamou a atenção foi o desenvolvimento dos personagens, geralmente tão raso nas HQs, o que não é o caso aqui. Além disso, apesar de morar há 20 anos em Buenos Aires, ainda me sinto uma alienígena entre os portenhos, brincou. Viver em outra cidade, creio eu, exige uma leitura permanente da vida dos outros. E também acho muito interessante a idéia de uma cidade que deixa de funcionar como uma, acredito que possa ajudar com isso no filme.

Por fim, ao falar sobre a criativa utilização do som em seus longas-metragens ¿ o som é tátil, viaja até os ouvidos em vibrações pelo ar, o que a literatura e o papel não permitem ¿, Martel revelou uma divertida fobia quanto a piscinas, presentes com destaque em seus dois primeiros trabalhos. Tenho um nojo enorme de piscinas. Aquela água cristalina esconde coisas tão suspeitas (risos). Mas é um lugar fascinante, um ambiente cheio de água metido na terra que possibilita uma sensação de imersão incrível, que ainda permite a absorção dos sons através de outro ambiente que não o ar. Observação curiosa e excêntrica, mas que faz sentido tendo em vista sua filmografia.

Lucrecia Martel na Flip

- Sexta-feira (03), 11h45: Ficções, com João Gilberto Noll e mediação de Samuel Titan Jr.
- Sábado (04), 23h: pré-estréia do filme La Mujer Sin Cabeza, na Casa de Cultura de Paraty.

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