Loucos por trabalho, eles não gostam de tirar férias Por Fabiana Caso São Paulo, 15 (AE) - Nos dias quentes de verão, muitos desfrutam de um merecido ócio. Mas, contrariando a regra, há quem sinta um comichão desagradável só de pensar em não fazer nada, mesmo que seja por poucos dias.

O empresário paulistano Sergio Contente, por exemplo, de 51 anos, trabalha dia e noite. Dirige a Contmatic Phoenix, empresa de softwares, que tem cinco filiais no interior de São Paulo. E é presidente da Fundação Idepac, onde dá aulas. Com tanta ocupação, não sai de férias há mais de 20 anos. Nunca nem cogitou tirar um mês de descanso. "Não tenho vontade."

Chegou a escolher o período do carnaval para casar-se, como forma de perder menos dias úteis, mesmo tendo optado por uma enxuta lua-de-mel, com duração de uma semana. "Foram só dois dias úteis", comemora. "As pessoas costumam pensar que sou estranho. Mas acho estranho quem tira férias. Uma semana para mim já é demais, me sinto inútil longe do trabalho, não tem graça. Nem consigo imaginar o que as pessoas fazem durante um mês."

Na época em que tinha acabado de se formar, trabalhava como programador e também dava aulas na faculdade. Teve uma estafa, com direito a furúnculos na pele. "Fiquei fraco fisicamente, mas minha cabeça estava boa", lembra. Depois de três dias de molho, à base de injeções, voltou à rotina de trabalho. "Agora nunca fico doente. No máximo, pego uma gripe por ano, mas fraquinha."

Casado e com dois filhos, não se sente estressado, nem frustrado. Pelo contrário. "Sou alegre e me distraio jogando vídeo game com meu filho", conta. Recentemente, reformou a cozinha gourmet de sua casa e está se aventurando no fogão. "Quando estamos cansados, o ideal é descansar por um dia, dormir até mais tarde. Mas cansaço mental se cura com distração." Sua última ida ao litoral foi no começo de 2008. "Mas quando tenho tempo para um momento de lazer, aproveito tudo. Não fico jogado no sofá."

SEM FÉRIAS, MAS COM LAZER
A dentista paulistana Mara Sylvia Dias Valverde Rebelato, de 44 anos, reforça o coro dos trabalhadores contentes. Além de dirigir seu próprio consultório, também atende em clínicas e em domicílio. O seu marido é fisioterapeuta e vive a mesma situação, com o agravante de trabalhar também nos fins de semana. Há 14 anos, Mara não tira férias prolongadas, de 20 dias ou mais. "Se não trabalho, não ganho", responde. "Mas não sinto muita falta, gosto do que faço. Sentia quando as crianças eram pequenas." Hoje, os filhos têm 12 e 15 anos.

Já foi obrigada a parar, por reclamações do próprio organismo. Em 2007, submeteu-se a uma cirurgia para sanar uma hérnia de disco. O médico pediu repouso de 15 dias, mas Mara voltou a trabalhar depois de 10. Em seguida, passou por outra operação para implante de silicone nos seios. Mais uma vez, contrariando a recomendação médica, voltou ao batente depois de 10 dias, ao invés do dobro do tempo indicado. "Tive uma hemorragia interna. Fui obrigada a passar por outra cirurgia e ficar mais 10 dias em casa", lembra. "Realmente não consigo ficar longe do trabalho. Sou ligada no 220, me entedio com facilidade em casa."

Depois dos sustos, porém, repensou sua rotina. Hoje tenta ter uma vida equilibrada. Três vezes por semana, trabalha cerca de 12 horas diárias. Mas dedica as quintas-feiras para cursos de atualização. "Tenho flexibilidade também para desmarcar um paciente se tiver de ir a uma reunião na escola dos meus filhos." Começou a praticar ioga e está pensando em fazer dança de salão. Até gostaria de tirar uns 30 dias para viajar com o marido, mas a impossibilidade de realizar este desejo não a deixa triste.

"Estou feliz com minha profissão. Tem gente que trabalha menos e não está contente. Saber administrar o próprio tempo é o mais importante", pondera. Já no caso da paulistana Thailise Monteiro, de 23 anos, a falta de férias não é exatamente uma escolha. As oportunidades foram surgindo desde que cursava a faculdade de Publicidade. Começou a fazer estágios há quatro anos, sem férias remuneradas. Emendou com o primeiro emprego, como analista de marketing, e justamente quando ia tirar férias, foi trabalhar em outra empresa. Depois de um ano, recebeu nova proposta irrecusável. Conclusão: agora, no terceiro emprego, tem de esperar mais um ano para o sonhado descanso. "Estou em um momento profissional legal, tenho novos desafios. Mas sinto que preciso descansar." Também tem aulas à noite: está concluindo a pós-graduação em Gestão de Negócios. "Não tive nenhuma crise nervosa, mas a pressão e as responsabilidades aumentaram."

Thailise compensa os quatro anos sem férias com atividades de lazer. Namora, vai a parques, museus, cinema, teatro, sai com os amigos e sempre que pode viaja para o interior nos fins de semana. Para dar conta de tudo, costuma dormir apenas cinco horas por dia. "E olha que não tomo café. Mas recarrego as baterias dormindo mais nos sábados e domingos."

NEGÓCIOS QUE NÃO PARAM
A produtora cultural carioca Stephanie Mayorkis, de 37 anos, também vive numa roda viva de trabalho. Era executiva da empresa Time for Fun, e atuou como diretora da Ticket Master. Mas, mesmo nessa época em que era empregada, não tirava férias de 30 dias. Não por medo de perder o emprego, mas por opção. "O segmento de eventos é muito dinâmico, não dá para passar 30 dias fora", diz, convicta. Não tem um descanso prolongado há três anos. "Sempre gostei muito do que faço e continuo gostando."

Hoje, tem seu próprio negócio, a Egg Produções. O marido trabalha organizando viagens. "No máximo, conseguimos tirar cinco dias de folga. Aproveitamos as viagens de trabalho para esticar um pouco", conta. Além do expediente administrativo da produtora durante a semana, aos sábados e domingos, fica atenta a exposições e eventos culturais.

Vive entre o Rio e São Paulo, e viaja para o exterior, a trabalho, cerca de três vezes por ano. "Tem momentos que sinto falta de férias, mas como viajo muito, vejo coisas diferentes." Stephanie, que já foi tenista profissional, relaxa praticando corrida nos fins de semana e malhando na academia quatro vezes por semana. "Meu filho de 2 anos é minha maior terapia."

Há 20 anos, a designer de interiores Silvana Carvalho, de 45 anos, toca o próprio negócio. Atualmente, tem um escritório em casa - um meio de conciliar o trabalho e o convívio com as duas filhas, uma de 10 e outra de 3 anos. "Aproveito o tempo com minhas filhas e trabalho nos momentos em que estou mais produtiva. Isso pode ser até de madrugada."

Silvana não tem férias de 30 dias há dez anos. "Trabalho sozinha: sou secretária, designer, visito obras. Faço tudo", explica. "Sinto falta de viajar, mas levo numa boa." Caminha diariamente e, há três anos, faz dança contemporânea. Todo ano programa-se para deixar o mês de outubro livre, período em que ensaia para o espetáculo anual de dança contemporânea. "A falta de férias também tem a ver com a mudança de vida após os filhos", comenta. "Antes, eu e meu marido íamos para a Europa: alugávamos carros e dormíamos em qualquer lugar. Não dá para fazer isso com crianças."

EQUILÍBRIO
O consultor, diretor executivo do Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual (Insadi) e pesquisador do Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégias da Universidade de São Paulo (Naipe/USP), Dieter Kelber, diz que está sempre de férias, porque faz o que gosta. No entanto, não tem um descanso prolongado há sete anos. "Quem tira férias para namorar ou ver os amigos está com um cotidiano desequilibrado, porque deveria fazer essas coisas sempre. Não é possível encarar as férias como um remédio."

Já o consultor Renato Bernhoeft avalia que a questão das férias é comportamental. Lembra do princípio calvinista de que "o trabalho é uma adoração, e o ócio, um pecado." "Há essa mentalidade de que é preciso estar sempre produzindo", comenta. "Mas um certo afastamento do trabalho, ainda que em períodos divididos ao longo do ano, é muito importante. A rotina cria um certo embotamento mental."

Para ele, o mais importante durante as férias é quebrar a rotina, ainda que seja conhecendo a própria cidade. Autor de livros como "Trabalhar e Desfrutar" (Nobel), Renato ressalta que as férias aumentam a criatividade e a produtividade. Entre as consequências da falta de descanso prolongado, cita o risco do autoengano de ser insubstituível, o que pode acarretar prejuízos para a carreira. "São as pessoas que ficam felizes quando recebem telefonemas do trabalho durante as férias", fala Renato. "O físico também pode se ressentir com a rotina permanente, com dores de cabeça constantes ou úlcera."

O psicólogo Esdras Guerreiro Vasconcelos, professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em estresse, diz que as pessoas que não tiram férias costumam pertencer ao chamado tipo A. "Querem produzir sempre, e mais, com um espírito intenso de competição", explica. "Tanto na vida profissional como na pessoal, estão sempre buscando o sucesso."

O professor lembra que produzem também altas quantidades de adrenalina e serotonina. Por isso, há o risco de sofrerem uma queda drástica de adrenalina com um descanso prolongado. "Se ficarem sem fazer nada numa praia, podem até ter um enfarte", acredita. "Sair da rotina de trabalho é essencial. Mas o ideal, para essas pessoas, é tirar férias quando estão preparadas para se desligar de verdade: do trabalho, do celular, da TV." Quando há uma impossibilidade financeira, recomenda: "o importante é equilibrar o trabalho com lazer e relacionamentos afetivos."

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