Livro conta drama de prisões venezuelanas, as mais violentas da América

Paula Vilella. Caracas, 10 out (EFE).- Armas, drogas e assassinatos por trás dos muros estão entre os temas que a jornalista venezuelana Patricia Clarembaux conta em seu livro A ese infierno ya no vuelvo (A esse inferno já não volto), que relata o drama das prisões de seu país, as mais violentas da América.

EFE |

Nos 31 centros penitenciários que abrigam cerca de 24.360 pessoas morreram 422 presos em 2008, o que transforma a Venezuela no país do continente com mais mortes violentas intramuros, segundo dados do Observatório Venezuelano de Prisões (OVP).

Segundo o Observatório, o número de mortes violentas nas prisões venezuelanas superou em 2008 as ocorridas em todas as prisões do México, Brasil, Colômbia e Peru juntas. Se forem contabilizadas as mortes no período de uma década os assassinatos somam 3.664.

A partir das páginas do jornal "Tal Cual", Clarembaux dedicou-se durante três anos a denunciar o horror ocorrido nos presídios do país, totalmente esquecidos pelo Estado, que os condenou a viver em condições subhumanas.

Prisões amontoadas de gente, sem paredes, com grande acúmulo de lixo e fezes, nas quais os presos estão melhores armados que os guardas que os custodiam e onde é fácil conseguir qualquer droga, relatou a jornalista.

"As instituições penais transformam os privados de liberdade em seres impossíveis de conviverem em sociedade já que em lugar de reabilitá-los acabam dando mais ferramentas para serem delinquentes", explica em entrevista à Agência Efe Clarembaux, quem nunca se refere a eles como presos para não ofendê-los e humanizá-los.

Segundo a jornalista, a causa principal desta situação está fora dos muros, é provacada por uma sociedade em que crianças crescem nos bairros sem a figura paterna, com mães sem condições de prestar atenção à educação delas porque trabalham o dia todo e nos quais os delinquentes são um patrão exemplar.

"Nos bairros de Caracas a figura do malandro é vista como herói, que todos querem imitar quando forem maiores", acrescenta, razão pela que podem, por delitos menores, acabar compartilhando cela com assassinos e estupradores já que os presos na Venezuela não são classificados por crimes.

Nos centros de reclusão, o Estado é mera figura administrativa, sem funções reais, que precisam negociar com os líderes da prisão, conhecidos como pranes.

Clarembaux os compara com o conselho administrativo de uma empresa, que toma as decisões e estão são acatadas por todo resto dos trabalhadores e inclusive o diretor do centro, que não pode fazer nada sem conversar com o conselho pelo temor de um massacre.

Nas prisões circula dinheiro, drogas e muitas armas (só em 2008 foram apreendidas 2.148 segundo OVP) nos negócios entre presos e autoridades, o que as transforma em máfias, onde os líderes concentram uma grande quantidade de poder e recursos.

No entanto, a jornalista defende que os pranes promovem atividades em seus centros, mantêm a ordem e solucionam problemas como o acúmulo de lixo e os conflitos internos.

Ela detalha como são os centros mais populosos, onde há vários pranes. Esses locais são os mais violentos já que a prioridade é impor uns sobre outros. É lá que ocorrem a maior parte das mortes intramuros, destaca.

No entanto, o que mais chocou Clarembaux em suas sucessivas visitas aos diferentes presídios do país são os presos que o mundo não quer receber, detentos que ninguém quer receber.

Um mundo que, segundo ela, "é em branco e preto e o fazem parte os homens mais tristes que jamais tenha visto".

Nem sequer a religião serve para redimir esse setor, já que os evangélicos, que têm pavilhões especiais e são as pessoas mais respeitadas dentro dos presídios, exigem provas de fé para aceitar a seus membros.

Clarembaux revela que jamais entraria em um presídio sem a companhia de evangélicos, que "caminham por qualquer pavilhão ou cela, se abraçam a todos e são respeitados" ao contrário dos católicos, que não têm nenhuma credibilidade nas prisões. EFE pvg/dm

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