SÃO PAULO ¿ Ao contrário do que reza o dito popular, gosto se discute sim. Este é o mote de Maurício Monteiro em seu livro A Construção do Gosto - Música e Sociedade na Corte do Rio de Janeiro - 1808- 1821 (Ateliê Editorial), que será lançado hoje à noite, em São Paulo, com bate-papo entre o autor e o maestro Júlio Medaglia.

O livro chega tarde na tsunami editorial das comemorações dos 200 anos da vinda da família real portuguesa. Mas, seguramente, é a mais precisa e refinada reflexão sobre a música naqueles 13 anos, de quantas se publicaram até agora. É um bálsamo ver um musicólogo brasileiro bater forte nas análises puramente técnicas: "Se quisermos compreender as práticas musicais, é preciso, sim, observar a sociedade onde ela é feita." Isto é: a música não é olímpica, feita num ambiente neutro. É preciso, como faz Monteiro, perguntar sempre: quem compôs e para que foi composta a música?; quem ouviu, por que se ouviu e onde foi ouvida?; quem pagou por ela e a interpretou?

Afinal, a obra artística é feita por algum motivo e se presta a uma ideologia, "nem que seja a da expressão individual", diz Monteiro. E aqui entra a construção do gosto, neste livro de linguagem fácil e enxuta que dialoga de modo competente com autores extramuros musicológicos, como Raymundo Faoro, Norbert Elias e Walter Benjamin. Seu guru só poderia ser mesmo o formidável historiador Arnaldo Contier.
Construção do Gosto . De Maurício Monteiro. Ateliê Edit. 360 pág. Fnac Pinheiros. Av. Pedroso de Moraes, 858. Hoje, 19h30.

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