Livro analisa a pintura de Clarice Lispector

Nos arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, podem ser vistos 18 quadros de contornos sombrios e pontuados por uma estranha comunhão de cores. Não têm grande valor do ponto de vista estético, mas chamam a atenção pelo fato de serem assinados por uma autora incomum: Clarice Lispector. ¿É uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever¿, definia Clarice. É à conjunção entre literatura e pintura que se dedica o mais novo livro sobre ela, ¿Retratos em Clarice Lispector: literatura, pintura e fotografia¿, de Ricardo Iannace, publicado pela Editora UFMG.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

Originalmente uma tese de doutorado na USP, defendida em 2004, o livro de Iannace é mais uma peça do infindável xadrez de trabalhos, estudos, homenagens e citações à escritora que jamais experimenta o descanso da morte ¿ para muitos, isso ocorre em razão de que há uma Clarice Lispector para cada um de seus admiradores. Para citar as últimas contribuições, basta lembrar a reveladora e volumosa biografia escrita por Benjamin Moser, Clarice, (com vírgula, referência ao parágrafo inicial de A paixão segundo G.H.), uma recente exposição no Instituto Moreira Salles (IMS), a Clarice pintora e um dos espetáculos mais elogiados de 2009, Simplesmente eu. Clarice Lispector, de Beth Goulart.

Reprodução

"Eu te pergunto por quê?", quadro pintado por Clarice Lispector em 1975

Com prefácio de Nádia Gotlib ¿ autora de uma histórica biografia, Clarice, uma vida que se conta (que ganhou reedição no ano passado) ¿ Iannace analisou os 18 quadros que estão na Fundação Casa de Rui Barbosa, e a eles somou outros quatro (dois pertencentes ao IMS, um à escritora Nélida Piñon e outro a Autran Dourado). Todos são reproduzidos no livro. Clarice via na pintura uma forma de relaxamento, de descontração, uma atividade sem pressão, uma vez que não tinha grandes pretensões ¿ sinal trocado com a relação que mantinha com o processo de escrita. Apesar disso, dizia que o processo criador de um pintor e do escritor são da mesma fonte.

O livro parte dessa definição de criação para analisar a aproximação entre a literatura, pintura e fotografia. É uma análise de múltiplos caminhos: o estilo de Clarice nos quadros que pintou, nas narrativas que escreveu, traduziu ou leu e, no fim das contas, o que tudo isso tem a ver com a arte do retrato.

Iannace mostra o que os quadros de Clarice teriam de mais interessante: a técnica e os traços semelhantes à acepção da autora na literatura ¿ liberdade de criação, uma metalinguagem e a presença do mundo fantasmagórico, assombroso até. A obra de arte é um ato de loucura do criador, escreveu Clarice.

Reprodução

"Interior da Gruta", de 1960


Princípio único

O autor conclui que um princípio único governa literatura e pintura, depois de analisar crônicas como Fundo de gaveta, do livro A legião estrangeira, o quadro Paysage aux oiseaux jaunes , de Paul Klee ¿ que Clarice admirava ¿ autores como Edgar Allan Poe, Nikolai Gogol, Stéphane Mallarmé e Honoré de Balzac, também caros à escritora.

Feitos em madeira (exceto um, produzido em tela), os quadros de Clarice são abstratos, rompem com o figurativo e fazem da pintura o tema da própria Clarice ¿ é onde reside a metalinguagem detectada por Iannace. As manufaturas que a crítica costuma discriminar como abstratas e figurativas aparecem na produção de Clarice Lispector numa só ordem, afirma o autor. Ele define os quadros como técnica mista, uma vez que a pintora usava técnicas variadas, como mistura de óleo, caneta esferográfica e hidrográfica, cola líquida e vela derretida.

Iannace sublinha ainda o gosto pelo inacabado presente nas duas artes de Clarice. A confluência ia ao extremo: Caos metamorfose sem sentido, título de um dos seus quadros, é citado pela escritora no livro Um sopro de vida como obra de sua personagem Ângela. Estou pintando um quadro com o nome de Sem Sentido. São coisas soltas ¿ objetos e seres que não se dizem respeito, como borboleta e máquina de costura, diz a personagem.

O que ler sobre Clarice

- Retratos em Clarice Lispector: literatura, pintura e fotografia, de Ricardo Iannace. Editora UFMG, 184 páginas, R$ 36.
- Clarice,, de Benjamin Moser. Cosac Naify, 648 páginas, R$ 79.
- Clarice: fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib. Edusp/Imprensa Oficial, 656 páginas, R$ 90.
- Clarice na cabeceira, de Teresa Monteiro (org.). Rocco, 256 páginas, R$ 32.

Leia mais sobre: Clarice Lispector

    Leia tudo sobre: clarice lispectorliteratura

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG