Limites de convivência também valem nas férias, lembram especialistas

Limites de convivência também valem nas férias, lembram especialistas São Paulo, 09 (AE) - Passear sem os pais não fica menos perigoso em julho, assim como as bolas de sorvete não deixam de conter gordura hidrogenada só porque as férias chegaram. A novela das nove também não vai sair do ar mesmo que as crianças estejam na sala até tarde, livres das obrigações escolares.

Agência Estado |

Enquanto os filhos descansam, o trabalho dos pais dobra: fiscalizar o cumprimento das regras domésticas que ajudam a organizar a rotina da casa durante o ano letivo fica mais difícil quando sobra tempo demais para o videogame, a televisão, o computador e o pacote de salgadinhos ou doces.

Manter uma alimentação saudável, desligar a televisão no começo da noite e dormir o suficiente para que o sono seja reparador são normas que não tiram férias na casa do garoto Mateus Silveira Bianchi, de 12 anos. "Eu as chamo de regras inegociáveis. Se digo para ele não comer um alimento porque faz mal e depois libero totalmente nas férias fica uma situação contraditória. Aquilo faz mal durante o ano mas não faz mal por 30 dias? Ele adora sorvete, por exemplo, mas só permito quando viajamos. Em casa não tem. Além disso, somos vegetarianos e isso não muda só porque não tem aula ", diz a mãe do menino, a química Eliana Silveira, 45 anos.

Segundo Eliana, apenas o horário para dormir é uma norma flexível durante o recesso escolar. "No período das aulas, Mateus dorme no máximo às 21h, mas nas férias deixo que fique até mais tarde. Isso não significa, porém, que poderá ficar acordado durante a madrugada inteira. Na minha família há crianças que viram a noite no computador, algumas vão dormir às 4 h da manhã porque estão de férias. Não concordo com isso", opina. A internet, aliás, é um dos principais pontos de conflito entre ela e o filho. "Os primos têm Orkut, mas não acho que o site seja adequado para uma criança de 12 anos. Ele reclama muito, é claro, mas essa regra também é inegociável."

Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora do livro "Limites sem Trauma" (Editora Record), Tânia Zagury acredita que as férias cumprem uma função social importante na vida das crianças e podem vir acompanhadas pelo afrouxamento das normas domésticas. "Flexibilizar as regras não é a mesma coisa que liberar geral", enfatiza. "É bom lembrar que os pais têm responsabilidade sobre a saúde do filho. Deixar que ele passe as férias almoçando chocolate ou permitir que não durma o necessário porque passou a noite toda no videogame não é uma atitude responsável."

Segundo Tânia, mais importante que controlar o aumento do tempo livre é fiscalizar a qualidade do lazer que preencherá essas horas ociosas. "Se a criança está de férias até pode passar quatro ou cinco horas vendo TV ao invés de uma ou duas, desde que ela fique restrita aos programas permitidos pelos pais. O mesmo vale para o videogame. Pior do que ficar o dia todo jogando é comprar um jogo sem saber exatamente qual é o seu conteúdo: se quem vence é o jogador que atropela mais velhinhas, isso não pode ser considerado uma diversão, apenas ensina a banalizar a violência. Vale lembrar que é sempre mais fácil instalar um mau hábito do que uma boa conduta."

A dona de casa Soraia Barillaro Spada, 33 anos, diz que durante as férias escolares acaba flexibilizando algumas regras estabelecidas para os filhos (Leila, de 7 anos, e Lucas, de 13), mas admite que as mordomias do período deixam alguns rastros de indisciplina quando a rotina é restabelecida. "Leva uma semana para as crianças entrarem no ritmo outra vez, principalmente com relação aos horários para dormir e acordar", diz. Outro desafio da mãe é gerenciar o uso da internet. "Cheguei a colocar o celular para despertar de uma em uma hora para que se revezassem no computador. Nas férias ficam mais agitados e passam mais tempo juntos. Tem disputa até pelo controle remoto."

Para Soraia, as férias representam um período de renegociar regras, mas não um tempo sem lei. "Os horários ficam trocados, eles tomam café no horário do almoço, almoçam no meio da tarde... O importante é que não deixem de fazer as refeições. O cardápio, porém, não vai mudar por causa das férias. Refrigerante, pizza e lanche continuam restritos ao jantar de sábado", enfatiza. Segundo ela, as regalias de julho têm um preço: o bom desempenho escolar. "Se eles se esforçam o ano inteiro, acho que merecem ficar mais à vontade. Agora, se tiver nota baixa ou reclamação vão ter de estudar nas férias e eu corto as coisas de que mais gostam."

A terapeuta Maria Tereza Maldonato, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-sp e autora do livro "Comunicação entre Pais e Filhos" (Editora Saraiva), acredita que a liberdade nas férias deve ser proporcional à responsabilidade demonstrada durante o ano letivo. "Os pais devem dar essa dimensão ao filho de que se ele não fez o esforço devido durante as aulas, as férias não serão completamente livres de tarefas", recomenda. Para ela, o período pede bom senso. "É claro que a flexibilidade deverá ser maior, mas nunca sem perder a medida. Férias não significa fazer o que quiser, como ver TV ilimitadamente ou comer só o que se tem vontade."

Maria Tereza lembra que o deleite infantil também está sujeito a limitações concretas, como a disponibilidade financeira da família. "É importante deixar claro que o tipo e a duração da diversão nas férias irá depender do orçamento dos pais. Nem sempre é possível ir ao cinema, lanchar fora de casa e passear todos os dias. O ideal é negociar com o filho, fazer com que entenda que o dinheiro pode não ser suficiente para satisfazer todas as vontades que as crianças têm nesse período. Vivemos em uma sociedade muito voltada para a necessidade de prazer e de entretenimento. Assim, é natural que as crianças sintam isso, mas aprender a lidar com a frustração também é uma lição importante."

Na avaliação da psicanalista Eiko Sato Okazaki, coordenadora do Espaço Psicanalítico de Investigação e Pesquisa Contemporâneo (Eppico) e palestrante no setor de psicologia médica da Associação Paulista de Medicina (APM), a dificuldade em gerenciar as ações infantis durante o recesso escolar reflete problemas disciplinares que também existem no restante do ano. "A situação apenas fica mais evidente nas férias porque as crianças passam mais tempo em casa. No geral, se os pais conseguem estabelecer as regras no início do ano, sempre com respeito, não enfrentarão tantos problemas nas férias."

Eiko acredita que as crianças, inconscientemente, esperam receber limites dos pais. "Se ninguém se pronuncia sobre a conduta da criança, se ela sempre pode tudo, começa a achar que não é importante, que os pais não ligam para suas ações. Pior que a repressão exagerada é a indiferença", explica.

Segundo Eiko, a falta de limites definidos na infância pode gerar um adulto infantil, que só impõe suas vontades e não aceita ser contrariado. "O papel dos pais hoje não é tornar os filhos felizes, mas sim capacitá-los a viver bem. Para isso é preciso dizer: ‘não pode’. Toda criança precisa ouvir um ‘não’, até mesmo nas férias."

DEVERES E DIREITOS NAS FÉRIAS
Na família da agente de viagens Grazziela Araujo, de 33 anos, o período de férias alivia a carga escolar das crianças mas intensifica a contribuição delas nas atividades domésticas. "Eu procuro lembrá-las todo o tempo de que eu e o pai deles não estamos de férias. Assim, se elas têm mais tempo livre para brincar, também podem lavar mais louça, arrumar o quarto todo dia e colocar o lixo para fora de casa. Também podem preparar sozinhos um lanche fácil, não precisam achar tudo pronto", sugere. Em contrapartida, a diversão também aumenta. "Nas férias eu libero geral o videogame, mas desde de que eles também façam alguma atividade física."

Os filhos de Grazziela (Ana Angélica, 13 anos, Antônio, 11, e João, 9) reclamam das regras, é claro. "Eles dizem: ‘ai, mas estamos de férias, somos crianças!’ Eu também acho que é preciso ser mais flexível nesse período, mas hoje em dia as crianças pensam nos direitos e esquecem dos deveres. Sempre digo a eles que quando eu era criança, como morava no interior, não havia shopping e tínhamos de esperar o parque ou o circo chegar para ter o que fazer", lembra.

A melhor saída, segundo ela, é planejar o descanso. "Como estratégia, procuro deixar algo mais dispendioso, como um parque aquático, para as férias. E mostro que precisamos economizar durante o ano para fazer um passeio legal quando estão de folga. "

Boxe:
JOGUINHOS
videogame e computador costumam virar companheiros das crianças. Monitore o acesso a sites e o conteúdo dos games. Proponha um pouco de atividade física em troca das horas sedentárias

SONO
dormir mais tarde pode ser permitido, desde que a criança descanse por um número de horas adequado para sua idade. O sono afeta a liberação do hormônio do crescimento, essencial na infância.

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