Limite para a vaidade faz bem à saúde, dizem especialistas Por Vera Fiori Um dos sete pecados capitais, a vaidade, é também um vespeiro. Que o diga o cinqüentão Michael Jackson, beauty victim sem precedentes na história do bisturi, e nossas celebridades instantâneas, como a mulher-melancia, mulher-melão, mulher-moranguinho e a mulher-maçã, abacaxis estéticos que perseguem a fama a qualquer preço.

"Estas celebridades são absolutamente passageiras e não chegam a deixar marcas. Por outro lado, propagam a idéia de que o sucesso está sempre atrelado à exposição do corpo, ainda que seja pela via do riso, do ridículo", opina Niraldo de Oliveira Santos, psicanalista da Divisão de Psicologia do Hospital das Clínicas e coordenador do curso de especialização em transtornos alimentares e obesidade do Centro de Estudos em Psicologia da Saúde (CEPSIC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Mas quando a vaidade ultrapassa os limites, é outra história. Transformar o corpo em um rascunho passível de ser corrigido/modificado aponta para o que a psiquiatria tem chamado de dismorfia corporal ou transtorno dismórfico corporal, termo que diz respeito a uma preocupação excessiva com algo relacionado ao corpo ou imagem. A preocupação obsessiva, seja com rugas na face, com o tamanho do nariz ou com a calvície, por exemplo, torna-se motivo de grandes prejuízos, comprometendo relacionamentos interpessoais em diversos níveis, podendo levar a inibições na vida amorosa, no trabalho, na escola. Achar defeitos em tudo o que vê em si é, em grande parte, conseqüência de uma insatisfação em outros âmbitos e, geralmente, está associado a condições depressivas.

Promovida a bem de consumo, hoje a cirurgia plástica é acessível (pode até ser parcelada), o que aumenta a procura por tais intervenções. Salvo comportamentos compulsivos (não só na estética, como na comida, no consumo), cuidar do corpo tem um viés positivo, como fala o psicanalista:"Devemos considerar a possibilidade de fazer cirurgias estéticas como um ganho, um avanço da ciência em relação à decadência natural do corpo. Com o crescente aumento da expectativa de vida do brasileiro, é esperado que estes cuidados ou procedimentos cresçam ainda mais e, como todo modo de satisfação disponível no mundo, não podemos culpar o objeto de prazer, mas sim a maneira como alguns fazem uso dele".

Porém, como lembra o especialista, não se deve esperar que a beleza seja o remédio para todos os males. "Costuma-se associar o sucesso financeiro a um corpo magro, ágil e produtivo. A mídia pode veicular a noção equivocada de que a administração do corpo (ser magro, por exemplo) é o "cartão de visitas" que garante a felicidade no amor e na profissão, incondicionalmente."

Se em terras tropicais o corpo jovem e sarado é passaporte para a fama, aceitação social e auto-estima, na Suécia nossas suculentas mulheres frutas seriam um fiasco. Segundo a dermatologista Ligia Kogos, que atende a rainha Silvia, é costume local seguir à risca o ditado que diz que mulher é como vinho. "Os suecos encaram com naturalidade a perda dos atrativos físicos a partir dos 35 anos. Curiosamente, no país onde é fabricado o preenchedor Restylane, os dermatologistas são comedidíssimos nos tratamentos, mesmo quando se trata do rosto de uma mulher de 70 anos."

No caso das celebridades brazucas que disputam o maior bumbum, o maior peito, a maior boca, o risco é de as pessoas do outro lado da telinha se espelharem nas Vênus turbinadas. "A TV é o nosso Oráculo de Delfos. Através dela, os leigos recebem informações, muitas vezes distorcidas, sobre cirurgias e outros procedimentos estéticos." Segundo Ligia, a culpa dos excessos é do médico, e não do paciente. "Se Monalisa viesse ao meu consultório, aumentaria os lábios dela. Mas, por outro lado, não serão os lábios finos que a fazem ser Monalisa? Por isso, cabe ao médico ponderar, apontar o que é seguro e que pode ser caricato."

A dermatologista lembra que a vaidade é como um termômetro emocional. "O primeiro sinal da depressão é o abandono dos cuidados com a aparência. Do lado extremo, quando aparência vira uma idéia fixa, a vaidade tem o efeito de uma droga."

SEM LIMITES
"Tenho os pés no chão", dispara a modelo carioca Angela Bismark, 38 anos, 42 intervenções, incluindo cinco lipoaspirações, quatro trocas de próteses de silicone, pigmentação, preenchimento nos lábios e uma puxadinha nos olhos com fios de ouro para parecer japonesa, efeito que durou apenas um carnaval. Também constaria da lista uma himenosplastia (reconstituição do hímen) para satisfazer um fetiche do atual marido, o cirurgião plástico Wagner Moraes.

Vaidosa assumida, atribui os inúmeros retoques ao fato de ser uma pessoa detalhista. "Mas tem paciente que é impulsivo, acha que nunca está bem, quando o problema deve estar em casa. Plástica é para nos deixar bonitas e não bizarras. As pessoas nem acreditam que eu as fiz", gaba-se, contando que queria colocar 450 ml de silicone nas mamas, mas o marido não concordou.

Para o marido e cirurgião, Wagner Moraes, o paciente que nunca está satisfeito com a imagem acredita que a plástica vai solucionar suas desilusões. "Não se pode ‘mutilar’ a pessoa, mesmo que ela insista. Vai contra os princípios básicos da medicina", afirma, observando que muito do que sai na mídia sobre a polêmica celebridade é exagero.

Para entrar no site de Sabrina Trevizan Boing Boing, 24 anos, é preciso clicar no seu voluptuoso "cartão de visitas" - os seios. A loira ganhou o apelido quando apareceu na MTV como cover da atriz Pamela Anderson. Boing Boing, no caso, não é uma referência à mulher tipo avião, mas ao som de seus preciosos balangandãs.

Os seios, conta ela, são uma fixação desde menina, bem antes de se tornar famosa. "Usava enchimento sob as roupas até que, aos 18 anos, coloquei 300 ml de silicone. Ficava fascinada com as mulheres que via nos filmes americanos." Um ano depois, recheou os seios com mais 450 ml. Não satisfeita, em 2003, colocou 900 ml em cada um. Mas não ficou por aí. Após três anos levando negativas dos médicos, finalmente conseguiu um que topou colocar uma prótese de 1,5 litro em cada mama. "Não existe prótese desse volume no mercado. Ela foi feita sob medida para mim por uma empresa da Noruega, e não descarto a possibilidade de aumentar mais. Gosto do resultado, e os homens adoram." Tanta vaidade não faria mal à saúde? "Na primeira semana após o implante, sinto dor, pressão nos ombros e até falta de ar, mas depois me acostumo", diz a modelo, que faz a alegria das revistas masculinas.

NA MEDIDA
Do lado oposto ao da safra de mulheres hortifrutis, Loraine Bugard, 37 anos, diretora de atendimento da agência Young & Rubincam, assume a vaidade, mas sem exageros. "O segredo é não viver em função da vaidade, nem ser escrava da beleza. Não passo seis horas fazendo ginástica, até porque não daria para fazer mais nada na vida!" Segundo a publicitária, casada e com filhos, sua preocupação é estar bem daqui a alguns anos. Todos os dias depois que deixa as crianças na escola, faz exercícios, alternando corrida, natação e musculação. Vai a uma dermatologista, cuida da alimentação, usa cremes para o rosto e corpo e já usou botox. Diz que trabalha com a imagem e que aparência não deixa de ser um produto.

No mercado de trabalho, os pavões não são bem vistos. "A linha que separa o marketing pessoal bem feito e a vaidade enrustida é muito tênue. É preciso separar a vaidade positiva, que é o cuidado com a imagem pessoal, da vaidade nociva, como querer ser notado e impor-se para chamar a atenção de quem está em volta", fala Ricardo Melo, consultor em desenvolvimento humano e presidente do instituto que leva o seu nome. "Querer aparecer a qualquer custo é como carregar um outdoor que diz: sou inseguro. Desejar o reconhecimento não é ruim, mas fazer disso uma meta é bem diferente."

Mas, afinal, como seria um mundo sem vaidade, onde as aparências não tivessem a menor importância? Um cenário desolador, como um cemitério cheio de espelhos, escovas de cabelo e sapatos - ícones da feminilidade, como sugere a provocativa campanha publicitária de O Boticário, assinada pela AlmapBBO. E como quem entra na fogueira das vaidades é para se queimar, o comercial vem sendo alvo de críticas - alguns entendem que se trata de uma ode à futilidade, em detrimento de outros valores - e de elogios - na concepção daqueles que concordam com o poeta Vinícius de Morais. "A vaidade é fundamental para a evolução humana", fala o redator Renato Simões, lembrando que a mensagem da campanha nada mais é do que o direito à beleza.

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