Leilão inédito em Paris vende bebidas e glamour

Por Estelle Shirbon PARIS (Reuters) - Ocultados dos nazistas durante a ocupação de Paris na Segunda Guerra Mundial, tesouros de uma das maiores e mais finas adegas do mundo estarão à disposição de quem pagar mais, num inédito leilão nos dias 7 e 8 de dezembro.

Reuters |

O ilustre restaurante La Tour d'Argent, presença constante no circuito gastronômico parisiense desde sua fundação, em 1582, venderá 18 mil garrafas de vinhos e outras bebidas.

Trata-se de algo inédito para essa venerável instituição, cujo salão, num sexto andar com vista para a Notre Dame, ainda atrai monarcas, atores e outras celebridades. A adega, no porão do restaurante, está lotada de alto a baixo com 450 mil garrafas empoeiradas de vinhos tintos e brancos, champanhes e bebidas espirituosas.

"Para os amantes do vinho, essas adegas são como Meca, como uma catedral", disse Alexis Velliet, especialista da casa de leilões Piasa, responsável pela venda.

O restaurante pretende arrecadar pelo menos 1 milhão de euros (1,5 milhão de dólares). Mas algumas garrafas são tão raras que nem tem um preço disponível, e os lances podem disparar.

Os itens mais antigos à venda serão três garrafas do conhaque "Clos du Griffier", de 1788. O preço inicial será de 2.500 euros por garrafa. Mas há também inúmeros vinhos mais jovens, alguns a partir de 10 euros.

David Ridgway, sommelier-chefe do La Tour d'Argent há 28 anos, recusou-se a dar dicas para compradores. "Considero os vinhos um pouco como meus filhos. Não se pode ter uma preferência", disse ele à Reuters.

SALVO DOS NAZISTAS

Amado pelos reis franceses, pilhado durante a Revolução, o La Tour d'Argent passou ao chef pessoal de Napoleão no século 19. O restaurante ainda preserva uma mesa posta exatamente como estava em 7 de junho de 1867, quando o czar Alexandre 2o, o rei Guilherme 1o da Prússia e Otto von Bismarck, arquiteto da unidade alemã, foram ali discutir o futuro da Europa.

Talvez o momento mais sombrio do estabelecimento tenha sido durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Exército alemão obrigou o proprietário, Claude Terrail, a mantê-lo aberto para que gente como o marechal Hermann Goering desfrutasse de especialidades como o pato prensado à cabidela.

Mas Terrail teve o cuidado de murar a adega pouco antes da ocupação nazista na cidade. Ele serviu vinhos baratos aos clientes nazistas e espionou suas conversas, transmitindo informações à Resistência.

Depois da Guerra, o restaurante continuou atraindo celebridades do mundo inteiro: presidentes norte-americanos --John Kennedy, Richard Nixon e Bill Clinton--, diversos monarcas europeus e asiáticos, astros do cinema, de Grace Kelly a John Travolta, e jogadores de futebol, de Pelé a Ronaldo, deixaram seus autógrafos ou fotos nas paredes.

Para o sommelier-chefe, a qualidade dos vinhos é mais importante que toda a história e o glamour --mas ele afirma que beber em boa companhia é o mais importante.

"Dizer qual é o melhor vinho é difícil. O vinho tem a ver com a partilha. O maior vinho do mundo terá um gosto amargo se você bebê-lo com alguém que lhe odeia."

(Reportagem adicional de Laure Bretton)

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