R$ 0,50. É esse o preço de uma pipa nas cidades satélites ao redor de Brasília. O valor do papagaio, no entanto, é infinitamente maior. Quase incalculável. Os gravetos de bambu, o papel de seda e a rabiola feita com pedaços de saquinho de supermercado garantem a diversão de alguns dias de férias. E mais: dão a chance de meninos e meninas de todas as classe sociais vivenciarem um dos direitos mais negligenciados da Constituição Brasileira. Está lá na lei que o lazer é um direito nato de crianças e adolescentes ¿ mesmo aqueles privados de liberdade.

Família, comunidade, sociedade e governo são obrigados a garantir o lazer da criança e do adolescente. Por isso, leia-se que a meninada, dentro do território nacional, tem o direito de brincar e participar de atividades culturais e artísticas.

Toda criança tem o direito de se divertir pelo menos algumas horas todo dia, quando está livre de preocupação. Essa garantia é complementar à educação e ao esporte porque, juntos, os três direitos contribuem para que a criança e o adolescente desenvolvam outras potencialidades e o relacionamento social.

O brincar é muito mais importante do que pensamos porque interfere na formação do adulto, anos depois. Pela brincadeira, a criança testa papéis sociais, aprende a dividir e a se frustra, explica a psicóloga Elisa Dias, do Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos da Universidade de Brasília (UnB).

O problema é que, na prática, a brincadeira está longe de ser uma prioridade para muitas crianças brasileiras. Ao contrário, o lazer tem sido negligenciado por pais, educadores e pelo próprio poder público. Não dá para negar que as brincadeiras mudaram. A violência e as exigências do mercado de trabalho em cima dos pais geraram novas formas de brincar, completa a psicóloga.

Com essa mudança, esconde-esconde, cabra-cega, amarelinha e outras brincadeiras de rua estão sendo praticamente extintas com o tempo. As crianças estão cada vez mais restritas aos muros de casa e obrigadas a procurar diversão dentro do quarto, geralmente recorrendo à televisão e aos jogos eletrônicos. 

Além disso, há os pais que matriculam os pequenos em diversas aulas complementares ¿ como as de inglês, esporte e música. Mas o fato, de acordo com a psicopedagoga Lívia Martins Souza, pode criar até mesmo um estresse na meninada.

Brincar é tão importante quanto outras atividades da criança como curso de inglês ou natação. Não é um capricho e não pode ficar em segundo plano.

A criança que não tem muitas oportunidades para brincar livremente e que não compartilha com os pais esses momentos de descontração pode desenvolver dificuldades de expressão e de socialização. E Lívia vai mais longe: não é preciso gastar milhares de reais para estimular os filhos. Uma almofada ou um pedaço de pano podem ser uma grande diversão para a criançada com pequenas doses de criatividade.

Elisa Dias completa: para os filhos, compartilhar com qualidade trinta minutos com seus pais é um ganho maravilhoso.

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