SÃO PAULO - A vitória de Gilberto Kassab em São Paulo projeta o DEM na sucessão estadual e fortalece o governador tucano José Serra e a aliança com o PSDB na disputa pela Presidência, em 2010. Com votação histórica, de 60,72 % contra 39,28% de Marta Suplicy (PT), Kassab controlará um orçamento maior do que a soma de todos os orçamentos das outras 494 prefeituras, de acordo com a Justiça Eleitoral, que o DEM conquistou nessas eleições.

A votação do prefeito na capital paulista foi o maior desde a eleição de Jânio Quadros, em 1953.

Na noite de ontem, foi ao lado do governador José Serra que Kassab concedeu sua primeira entrevista coletiva após a vitória confirmada. Também em companhia da candidata à vice em sua chapa, Alda Marco Antônio (PMDB), Kassab dedicou a vitória a Serra, que segundo ele é um " grande líder e um grande amigo " . O prefeito reeleito exaltou a aliança com o PSDB e a projetou para as próximas eleições. Kassab voltou a garantir que ficará no cargo durante os quatro anos de seu mandato, ao contrário de Serra. Disse que sua " biografia " é a garantia disso.

" Fui sócio administrativo de Kassab " , disse Serra na entrevista, na qual afirmou que a aliança entre PSDB e DEM sai fortalecida. Segundo o tucano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esteve presente em campanhas pelo país, como em São Paulo, " não perdeu nem ganhou nesta eleição " . " Ele não era candidato. Não foi derrotado. "
O tucano analisou o quadro geral das eleições no país e disse que " ganhou a pluralidade e a diversidade " . Por quatro vezes comentou que os partidos e lideranças políticas que querem o monopólio perderam nestas eleições, mas negou ser uma referência direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou ao PT.

Engenheiro e economista, com 48 anos, Kassab foi vereador, deputado estadual, deputado federal e assumiu a prefeitura em março de 2006, quando Serra se desincompatibilizou do cargo para concorrer ao governo estadual. Ele continuará a administrar a maior prefeitura do país, cujo orçamento para 2009 será de R$ 29,4 bilhões.

Ao se reeleger, Kassab " segura " seu partido entre os que comandam os maiores orçamentos e populações. O DEM tem apenas um governador, José Roberto Arruda, do Distrito Federal, e nesta eleição conquistou menos prefeituras do que nas anteriores. Foram 495, ante 792 em 2004 e 126 em 2000.

Com a vitória, Kassab consolida-se como interlocutor do DEM para negociar a aliança com o PSDB de Serra em 2010, caso ele se candidate à Presidência. O tucano deu o respaldo que o prefeito precisava para colocar-se como candidato e costurou o apoio político de integrantes do PSDB já no primeiro turno, mesmo quando o partido apresentava Geraldo Alckmin como candidato.

Ontem, prefeito e governador já estavam juntos pela manhã. Logo cedo, Kassab tentou evitar o clima de " já ganhou " que dominava o comitê central de sua campanha, sem muito sucesso, e concedeu uma rápida entrevista coletiva e disse que esperava encontrar Serra em seguida. Por conta da aliança fechada para a eleição paulistana, havia muitos políticos do PMDB no comitê - o ex-governador Orestes Quércia era um dos mais entusiasmados -, mas era o PSDB que mobilizava as atenções.

A profecia de Kassab realizou-se em poucos minutos. No trajeto entre o comitê, no centro, e o colégio Santa Cruz, na zona oeste, onde o candidato iria votar, o ônibus da campanha, em que Kassab estava, desviou ligeiramente do percurso. O motivo? Passar na casa de Serra. E foi assim - juntos e de ônibus - que Kassab e Serra desembarcaram.

" Voto em Gilberto Kassab porque acho que ele é a melhor escolha para São Paulo " , disse o governador, em meio ao empurra-empurra que se formou na porta do colégio. O apoio apimentou a campanha desde o início, e Kassab disse, ainda no comitê, que ele foi muito importante no segundo turno das eleições.

No colégio Santa Cruz, Serra preferiu não falar sobre as eleições presidenciais de 2010. " Estou preocupado não é com as eleições para presidente, estou preocupado é com a cidade; que ela continue a ter uma administração de qualidade. Essa é a preocupação essencial " . Mas ele reconheceu que os dois partidos (DEM e PSDB) saíam fortalecidos do pleito, por causa da " garantia de uma boa administração " e de " uma excelente parceria entre Estado e prefeitura " .

A sintonia entre os partidos continuou a dar o tom. Após votar e acompanhar Alda Marco Antônio em sua votação no colégio Dante Alighieri, no bairro dos Jardins, Kassab seguiu para o apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que também defendia uma aliança em torno do demista logo no primeiro turno. Da sacada, acenaram aos jornalistas e fotógrafos reunidos em frente ao prédio, em Higienópolis, e desceram trocando palavras de apoio.

Acompanharam o encontro os secretários municipais Clóvis Carvalho (Governo), ex-ministro de FHC, e Andrea Matarazzo (Subprefeituras), além de Guilherme Afif Domingos, um dos mentores da candidatura Kassab. Na entrevista coletiva da noite, Serra ensaiou uma análise nacional a partir das eleições municipais. Disse que o recado dos eleitores a favor do pluralismo foi claro, mas depois negou que fosse um recado para o presidente Lula.

Mas, antes das sucessões estadual e nacional de 2010, Kassab terá que encontrar com Serra uma maneira de acomodar em sua equipe de governo os partidos que o apoiaram nesta eleição: PMDB, PV, PR e PSC. Além de participar do secretariado do prefeito, as lideranças políticas dessas legendas poderão ganhar espaço também no governo Serra.

Na sucessão de Serra no governo do Estado, em 2010, Kassab será o articulador político em seu partido. Fortalecido, o DEM tentará colocar seus quadros partidários no cenário eleitoral. O nome mais cotado é o de Guilherme Afif Domingos, que coordenou a campanha do prefeito. Hoje, Afif já deve se mostrar como um dos principais responsáveis pela vitória do DEM na cidade, quando fizer um balanço sobre as eleições para líderes empresariais. A apresentação será na sede da Associação Comercial de São Paulo, que respaldou as carreiras políticas de Afif e Kassab.

Para o prefeito, a campanha não teve reviravoltas. Ele terminou o primeiro turno à frente de Marta, com uma diferença de 0,82%, ou pouco mais de 52 mil votos. Começou e encerrou a campanha no segundo turno com a mesma intenção de votos, segundo o instituto Datafolha: 54%, percentual semelhante à soma dos 33% dos votos que Kassab teve no primeiro turno com os 22% abocanhados por Alckmin. Na apuração dos votos, superou até as pesquisas, ao obter mais de 60% dos votos.

Confiante em sua vitória, Kassab não acenou à população com a continuidade de obras que foram a vitrine da gestão da petista Marta Suplicy (2001-2004), como os Centro Educacionais Unificados (CEUs).

Ele não entregará todos os 25 prometidos por sua gestão até o fim deste ano. Em 2004, quando Kassab era vice de Serra, o candidato tucano comprometeu-se a continuar a construção dos CEUs. Na campanha, Kassab disse que sua adversária petista errou ao priorizar a construção desses centros educacionais e que os projetos não estarão entre suas principais ações. Já o PT prometia a construção de mais 20 CEUs.

(Cristiane Agostine e João Luiz Rosa | Valor Econômico)

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