Juiz manda soltar 3 dos 11 militares envolvidos no caso Morro da Providência

RIO DE JANEIRO - O juiz Marcello Ferreira Granado, da 7ª Vara Federal Criminal, revogou a prisão preventiva do cabo Samuel de Souza Oliveira, do sargento Bruno Eduardo de Fátima e do soldado Eduardo Pereira de Oliveira, que estão entre os onze militares envolvidos na morte de três jovens no morro da Providência, no Rio de Janeiro.

Redação |

Para Granado, o soldado e o sargento não teriam participado da detenção das vítimas e o cabo não teria contribuído de forma relevante no crime. O juiz concluiu então que não haveria receio de que ameaçassem testemunhas moradoras da localidade. Na decisão, o juiz também alegou que em outros momentos do caso os três permaneceram em situação de obediência hierárquica, sem participação determinante no desfecho do episódio.

Sargento viu jovem apanhando

Na última sexta-feira (5), o sargento do Exército, Renato Alves, admitiu nesta sexta-feira que, no momento em que saíam do Morro da Mineira, no sábado, dia 14 de junho, após a entrega de três moradores do Morro da Providência aos traficantes locais, ele viu um dos rapazes começar a ser espancado.

Em depoimento, ele disse que tentou convencer o tenente Vinícius Guidhetti, que comandava o grupo, a liberar os jovens, mas que o militar não quis rever sua decisão de entregar os jovens aos traficantes.

O sargento disse que procurou seu colega de patente Maia, que tinha anteriormente conversado com os traficantes. "Pede para liberar os rapazes que estão sendo espancados". Ele afirmou que ouviu do sargento que os jovens seriam liberados.

O sargento, que caiu em algumas contradições, também narrou ao juiz ter tomado conhecimento 20 minutos antes do início do interrogatório, por intermédio de um outro sargento do Exército que mora no Morro da Providência, que os traficantes da comunidade, ligados ao Comando Vermelho, estariam oferecendo R$ 10 mil pelas cabeças dos 11 militares envolvidos na morte dos três jovens.

Porém, o juiz não se mostrou muito convencido ao questionar o motivo de os traficantes quererem vingar a morte dos jovens. O juiz admitiu que entre os 11 militares pode ter algum "que entrou nessa história de gaiato", mas explicou ao sargento que a prisão de todos foi decretada por conta das contradições que eles têm caído.

"É preferível dizer a verdade, mas se a verdade não for possível, que mentira seja pelo menos coerente", disse, ironicamente, Granado.

Choro

AE
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Tenente Vinicius chora durante depoimento
Acusado de ser o responsável pela entrega de três jovens do Morro da Providência que foram assassinados por traficantes do Morro da Mineira, o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade chorou muito ao ser interrogado pelo juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Criminal Federal, nesta quinta-feira. Em seu depoimento, ele disse que sofreu pressão de seus subordinados ¿ os outros 10 militares envolvidos no caso ¿ e resolveu dar um susto nos jovens. 

O tenente contou não ter imaginado que os traficantes da Mineira ¿ morro controlado pela facção Amigo dos Amigos, rival a Comando Vermelho, da Providência ¿ fossem matar os três jovens. 

Indenização

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciou que um projeto de Lei do Executivo será enviado ao Congresso Nacional para estipular que tipo de indenização os familiares dos três rapazes do morro da Providência, centro do Rio, assassinados por traficantes de um morro rival após serem entregues por membros do Exército, devem receber.

De acordo com Jobim, a idéia é oferecer um salário mínimo (R$ 415) por mês para cada uma das famílias. O ministro não deu detalhes sobre o tempo em que o benefício será concedido.

Na ocasião Jobim defendeu o uso do Exército em ações sociais, negou um possível caráter eleitoral nas obras do programa e lamentou a determinação da Justiça eleitoral em suspender as obras na Providência. Para ele, quem mais saiu perdendo foi a população local.

Entenda o caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

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