Jovens diretoras argentina e bósnia brilham no Festival de Berlim

Gemma Casadevall Berlim, 18 fev (EFE).- O Festival Internacional de Cinema de Berlim foi agraciado hoje com filmes de duas jovens diretoras, a argentina Natalia Smirnoff e a bósnia Jasmila Zbanic, a primeira com um drama que conta com o talento de María Onetto e a segunda com uma obra sobre a radicalização islâmica em Sarajevo.

EFE |

Zbanic, nascida em 1974 em Sarajevo e Urso de Ouro em 2006 com "Grbavica", voltou ao Festival de Berlim com uma sutil amostra de como sugerir, mais do que expor, os efeitos deixados na sociedade bósnia muçulmana pelo conflito bélico.

Smirnoff, nascida em 1972 em Buenos Aires, estreou com "Puzzle", centrado nos sentimentos de uma mulher, María do Carmen - interpretada por Onetto. A personagem é presenteada em seu 50º aniversário com um quebra-cabeças, montado com muito prazer e rapidez.

Onetto é a menina dos olhos da diretora para desenvolver seu filme. O primeiro plano no rosto da atriz, alternado com o close em suas mãos superdotadas para montar qualquer quebra-cabeças, é o fio condutor do filme.

Entre os personagens do mosaico, estão o marido, os filhos e uma alma gêmea que surge como dupla para um torneio mundial de quebra-cabeças na Alemanha.

Em outra órbita está a diretora Zbanic com "On the Path". A história enfoca uma jovem e bela aeromoça bósnia, que quer ter filhos com seu companheiro, um muçulmano moderno e controlador aéreo, que perde o emprego por beber durante o trabalho.

Ao cair no desemprego, ele busca esperanças em um acampamento de muçulmanos que seguem as regras estritas do Corão, onde as mulheres se cobrem da cabeça aos pés e seu contato com o mundo é a fenda em sua burka na altura dos olhos.

"Após o genocídio, após a guerra perdida, foram muitos os que buscaram refúgio no fundamentalismo religioso. Tratei de abordar esse processo e até que ponto alguém, por amor, deve aceitar as mudanças do outro, quando começamos a renunciar a nós mesmos e a que ponto a renúncia significa traição", explicou Zbanic.

Do refúgio na religião à lavagem cerebral, do Corão ao fundamentalismo político: esta é a questão levantada por Zbanic, em um filme que mostra com inteligência os aspectos da sociedade bósnia.

Quatro anos após abordar em "Grbavica" o drama das mulheres violadas no conflito balcânico, Zbanic retornou ao festival com uma exibição de talento consolidado.

Sobre a estreante Smirnoff, se abordava a questão sobre se ela cumprirá a regra latente de que todo filme argentino em concurso sai premiado do Festival de Berlim.

Assim foi desde que Lucrecia Martel levou o prêmio em 2001 com "O Pântano". A regra se manteve, sucessivamente, com Daniel Burman, Ariel Rotter e Rodrigo Moreno, com distinções maiores ou menores, até chegar em 2009 ao portenho Adrián Biniez, com "Gigante", rodado no Uruguai.

Se Rotter e Moreno sustentaram seus filmes no trabalho de ator de Julio Chávez, Smirnoff pegou emprestado de Onetto - outro sinônimo de solidez interpretativa - de seu compatriota e colega Martel.

Smirnoff e Zbanic deixaram no Festival de Berlim o selo do bom trabalho, com o rótulo comum de "jovens produtoras", enquanto o anfitrião alemão recebeu a primeira vaia da competição com "Jud Süss", de Oskar Roehler.

Seu filme se centra na figura de um ator, Ferdinand Marian, que vende sua alma ao diabo - o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels - não por vontade própria, mas porque não se atreve a negar.

Ele acredita que poderá manipular o grande manipulador do Terceiro Reich, mas obviamente não consegue, com as previsíveis consequências para sua esposa, de origem judaica.

Rodada sob o prisma estético de um melodrama dos anos 40, com Moritz Bleibtreu a meio caminho da paródia de Goebbels, o filme provocou impaciência entre a imprensa internacional e algo de vergonha entre os alemães. EFE gc/sa

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