Demétrio Magnoli diz que governos veem imprensa como partido político, não como mediador da sociedade

O sociólogo e colunista Demétrio Magnoli, o diretor de redação da "Folha de S.Paulo", Otavio Frias Filho, e a presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, criticaram a tentativa dos governos da Venezuela, Bolívia e Equador de controlar a imprensa e de criar um "jornalismo estatal" e alertaram para riscos de que isso aconteça no Brasil. Eles participam do 8º Congresso Brasileiro de Jornais, no Rio de Janeiro.

Magnoli também afirmou que o governo Lula toma medidas nesse sentido e citou como exemplo a TV Brasil, estatal. "Existe um questão diretamente ligada à democracia e à existência da opinião pública na América Latina. Existe a teoria de alguns governos de que a imprensa não é a mediação da democracia, mas parte do jogo político, como um partido, que é uma teoria contra o jornalismo. Houve um seminário na Venezuela sobre 'terrorismo midiático' e há um projeto de jornalismo estatal, cujo epítome é a TeleSur [Venezuela], mas que tem aqui a TV Brasil. É a ideia de que é preciso combater a imprensa, criando a imprensa alternativa", afirmou Magnoli, que escreve em "O Globo" e em "O Estado de S.Paulo".

Demétrio Magnoli e Otavio Frias Filho no 8º Congresso Brasileiro de Jornais, no Rio
AE
Demétrio Magnoli e Otavio Frias Filho no 8º Congresso Brasileiro de Jornais, no Rio
De acordo com Otavio Frias Filho, "o receio de todos, sobretudo na América Latina, é a erupção de governos autoritários que têm, embora preservados, aspectos formais da democracia." O diretor da Folha citou Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e também Vladimir Putin (Rússia) e Mohamed Ahmadinejad (Irã) como "populistas que, embora mantendo as aparências de democracia desvirtuam e tutelam a democracia, intimidando adversários e críticos.

"Sempre há discursos que em alguma medida tentam estabelecer o 'controle social da mídia', a exemplo do que acontece em países vizinhos, como na Venezuela. Sabemos que no Brasil este não é um desejo majoritário, mas apenas a expressão de alguns grupos contrários à livre manifestação da opinião. São ideias retrógradas e preocupantes", afirmou Judith Brito, na abertura do congresso.

Apesar de fazer a ressalva de que a sociedade brasileira é mais complexa e a democracia mais forte que a de países vizinhos - "já havia um ambiente de relativa abertura democrática nos últimos dez anos do regime militar" no Brasil, disse - Frias Filho vê um "paralelo" entre eles e o presidente Lula, "ressalvando, em disposição de Lula", o fato de não ter pleiteado o terceiro mandato. "A fantasia do terceiro mandato não terá passado de uma fantasia", afirmou.

O diretor da "Folha" disse que "é muito fácil exercer espírito crítico e de fiscalização uma imprensa independente em ambiente em que o governo é fraco e impopular". "É uma situação completamente diferente quando é um governo popular, como o atual, com 70% ou 80% de aprovação. O problema é quando se tenta exercer esse jornalismo independente, com compromisso público com a veracidade do que publica, quando se procura praticar esse tipo de jornalismo, um governo popular tem, sim, condições de ameaçar, intimidar, em alguns casos", disse Frias Filho.

Frias Filho disse que os governantes são semelhantes quando se trata de reclamar da atuação da imprensa independente e comparou o general presidente João Figueiredo (1979-1985) ao presidente Lula no tipo de reação ao se ver alvo de cobranças e críticas.

"Os governos reagem todos da mesma maneira no que diz respeito à imprensa. É um ponto em que liberais, comunistas, democratas-cristãos, direitistas, qualquer facção que se queira nominar, uma vez instalada no poder reage da mesma maneira e, acredito que seja até uma reação humana, ninguém gosta de ser criticado, fustigado, cobrado. E a imprensa, muitas vezes no afã de chegar à verdade, às vezes incidindo em algum exagero e sensacionalismo, se precipita e comete imprecisões. Acho notável como as reações dos governantes são muito semelhantes. Não consigo identificar uma reação muito diferente entre o general Figueiredo, na época em que ele era presidente e o presidente Lula, hoje, no que diz respeito a uma insatisfação, a um incômodo, a cada vez que cobrados, apontados ou objeto de algum tipo de crítico", afirmou o diretor de redação da Folha.

Ele citou o "perigo da ditadura de maioria" e citou vídeo recente em que Lula aparece ao lado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB) falando com um rapaz em uma favela no Rio. O rapaz cobra a abertura de uma piscina, e Lula diz a Cabral que "O dia que a imprensa vier aí pegar essa porra fechada, o prejuízo político é infinitamente maior do que colocar dois guarda (sic) aqui... Coloca um bombeiro pra tomar conta!"

"Pareceu-me muito sintomático que essa seja a atitude de um presidente como ele. É quando a imprensa aponta as mazelas que o governo toma providências a respeito", concluiu Frias Filho.

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