Jorge da Cunha Lima: Dercy era quem rodava a baiana e abria os espíritos

Minha família era careta, como seus amigos próximos, mas não perdiam estréia da Dercy Gonçalves. Creio que essas estréias os aliviavam e purificavam dos odores do Colégio Sion, no caso das mulheres e da Politécnica no caso dos homens. Nos idos tempos, no Sion, as meninas tinham que tomar banho de camisola, para não expor o corpo à sanha devoradora das águas. Já os moços, na Poli, aprendiam calculo integral para não traírem nem o Augusto Comte, nem o Euclides da Cunha.

Jorge da Cunha Lima |

Vivíamos a contradição do positivismo agnóstico com a religiosidade francesa das freirinhas educadoras.

Uma única coisa rodava a baiana, virava o balde, abria os espíritos: Dercy Gonçalves.

Qualquer que fosse a partitura ela embaralhava a nota. Não respeitava roteiros nem dicas. Reinventava os personagens e criava textos seus, religiosamente seus.

A última vez que a vi foi na abertura do Centro Cultural do Tribunal Superior Eleitoral, no Rio de Janeiro, um belo palacete de mármore, que hoje abriga exposições, seminários e outras coisas austeras. Lá estava Dercy Gonçalves, painel vivo, entre inúmeros painéis impressos de mulheres famosas.

Dercy entrou no recinto, repleto de juízes togados, um pouco atrasada e foi recebida de pé, quase aclamada pela magistratura brasileira e seus convidados.

Trazia a gravidade do tempo, quase cem anos e a autenticidade do rosto, pintada como uma vedete de 19 anos. Ninguém naquela sala produzira tantos acordãos pornográficos, mas todos concordavam com a pureza artística de sua pornografia.

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