Jobim decide retirar tropas do Morro da Providência

RIO DE JANEIRO ¿ O Ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse, nesta terça-feira, que as tropas do Exército já deixaram o Morro da Providência, no Centro do Rio, e só voltarão depois que as obras do projeto Cimento Social foram liberadas pela Justiça Eleitoral. Jobim esteve reunido durante todo o dia no Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste (CML), para definir alternativas para o

Redação com Agência Estado |

Agência Estado
Operários comemoram decisão do TRE do Rio
Em nota, o Exército informou que "e m razão da decisão do Juiz da Fiscalização da Propaganda Eleitoral do Município do Rio de Janeiro, determinando a suspensão das obras que vêm sendo realizadas no morro da Providência, o Exército Brasileiro interrompeu, de imediato, a sua execução."

"Desse modo, as atividades relacionadas à segurança do canteiro de obras, do pessoal e do material deixaram de ser necessárias, resultando na saída de todo o pessoal militar daquela área", continua a nota.

As tropas tinham a função de participar do programa social, paralisado na manhã desta terça , por medida do juiz Fabio Uchoa Montenegro, responsável pela fiscalização eleitoral no Rio de Janeiro. O embargo foi devido a denúncias de que o senador e candidato a prefeito Marcelo Crivella (PRB) teria utilizado o projeto de reforma de 782 casas da comunidade com fins eleitorais.

A decisão do magistrado faz referência a panfletos distribuídos por militantes do senador com fotos dele sobrepostas às imagens das obras na favela, que caracterizam propaganda eleitoral subliminar na comunidade . Também foram consideradas evidências do uso eleitoral páginas de Crivella na internet fazendo referência ao projeto Cimento Social.

Diminuição do efetivo

Na semana passada, o presidente do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, desembargador Joaquim Antônio Castro Aguiar, determinou que a tropa só poderia permanecer na rua onde acontecem as obras do projeto de recuperação de casas do morro. Inicialmente, o efetivo diminiu de 200 para 60 homens. "No momento em que soubemos da decisão da Justiça Eleitoral, o Exército saiu do morro", afirmou o ministro.

O ministro informou que as tropas retornarão ao Morro da Providência ¿ de onde três jovens foram seqüestrados por 11 militares e entregues a traficantes do Morro da Mineira, onde foram assassinados ¿ quando o embargo for retirado.

Presença injustificável

Em meio ainda a um clima de consternação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na segunda-feira de uma reunião de quase uma hora, no Palácio da Guanabara, com cinco familiares dos rapazes mortos pelo tráfico. O presidente chegou a desabafar que considera injustificável a presença de homens do Exército em uma obra terceirizada, já que os trabalhadores ali empregados são da comunidade e os únicos militares seriam dois engenheiros. 

O caso

Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Na segunda-feira, após o enterro dos três jovens, moradores do Morro da Providência protestaram em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML). Durante a manifestação, policiais do Exército entraram em confronto com os moradores, atirando bombas de efeito moral.

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