Já gastei R$ 1.000 em um dia, diz ex-dependente

Após passar por tratamento em Belo Horizonte, Erik trabalha como voluntário na mesma instituição que o tirou do consumo do crack

Daniel Torres, enviado a Belo Horizonte* |

Daniel Torres, enviado a Belo Horizonte*
Erik, durante o seminário sobre drogas em Belo Horizonte
Erik Moitinho de Almeida, nasceu há 32 anos em Itamaraju, na Bahia. A família tinha fazenda de cacau e ele diz que nunca passou por necessidades. Também afirma que sempre teve oportunidade de estudar e casou aos 22 anos. Hoje, 10 anos depois, e separado, mora em um centro de tratamento de dependentes de drogas em Belo Horizonte. Está feliz porque conseguiu escapar das estatísticas que apontam para o altíssimo índice de mortes para usuários crônicos de crack, mas lamenta pelo que passou e por tudo que perdeu, principalmente a mulher.

“Fiquei casado sete anos. Ela sabia, me ajudava a tentar sair, até que me deu a última chance. Mas a droga é mais forte que a nossa vontade de parar. Ele não aguentou”, lamenta o jovem que hoje em dia é voluntário de uma rede de clínicas em Belo Horizonte.

Erik passou por um programa de 180 dias de internação no Credeq, em Minas Gerais. Há um ano, mesmo após o fim do tratamento, ainda vive na instituição, onde trabalha de domingo a domingo no auxílio à recuperação de outros dependentes químicos.

Além da mulher, o crack levou todo o dinheiro do ex-vendedor de carros da Bahia. "Já cheguei a gastar R$ 1.000 em um dia. O crack é uma droga barata, só que quando você começa, não para mais. Só quando o dinheiro acaba”.

Veja abaixo a entrevista com Erick realizada durante o “1º Simpósio Sul-Americano de Política sobre Drogas: Crack e Cenários Urbanos”, que acontece em Belo Horizonte.

IG – Como você chegou até aqui hoje, em Belo Horizonte e em um seminário sobre crack?

Erik  - Eu sou da Bahia. Eu vim para o Credeq através de uma pessoa que se recuperou aqui e está há 10 anos sóbrio. Eu estava em busca de uma comunidade urgente. Eu precisava me internar porque estava numa situação muito precária por causa do crack. Eu tinha a intenção de me internar por 90 dias, mas o programa mínimo é para se internar por 180 dias. Mas aqui eu me entreguei ao programa. E foi quando eu me converti e conheci Deus, o que até então eu não conhecia.

IG – E o que mudou na sua vida?

Erik - Tudo. Eu acabei cumprindo os 180 dias de internação. Mas houve uma mudança tão grande na minha vida, que mesmo depois do programa eu fiquei como voluntário. Não porque eu não tenha família ou aonde ir, mas porque eu vi que tem pessoas que dão a vida para nos tratar. Isso me despertou para tentar ajudar outras pessoas também. Aí eu vesti a camisa do Credeq e trabalho aqui de domingo a domingo. Quem passa pela droga e perde a esposa, o emprego e tudo o que tem, quando sai, sente a necessidade de ajudar. Eu cheguei ao fundo do poço.

iG – Por quanto tempo você consumiu drogas?

Erik - Fique em torno de 10 anos nas drogas, mas com algumas paradas. Às vezes parava seis meses, às vezes, oito meses. Mas isso era para não acabar o meu casamento. Fiquei casado sete anos. Ela sabia do que passava, me ajudava a tentar sair, até que me deu a última chance. Mas a droga é mais forte que a nossa vontade de parar. Se a gente não pedir ajuda a gente não consegue sair.

IG – Quando foi que começou a usar drogas?

Erik - Eu já usava maconha antes de casar. Aí comecei a cheirar cocaína bem devagar. Quando eu casei, eu fui morar na região de Porto Seguro e Arraial d’Ajuda, onde é muito fácil conseguir a droga. AÍ a situação foi piorando. Quando eu decidi pedir ajuda eu já estava no fundo do poço. Quando eu não tinha mais o que fazer.

IG – Quanto você gastava com a droga?

Erik - Eu gastei tudo o que eu podia e ainda contrai dívidas. Não cheguei a roubar, mas gastei tudo. Eu já cheguei a gastar R$ 1.000 em uma noite em um dia. O crack é uma droga barata. Na Bahia, eu comprava uma pedra por R$ 10. Só que é uma droga que quando você começa, você não para mais. Só quando o dinheiro acaba. E sem dinheiro você ainda tem a cara de pau de ir falar com o traficante para te vender fiado. Aí pede dinheiro emprestado, mente, perde a vergonha. Eu nunca roubei, mas usei todos os artifícios que eu tinha para não chegar a isso.

IG – De onde vinha o dinheiro para comprar a droga?

Erik - Eu fazia de tudo para ganhar dinheiro. Todo tipo de correria. Eu vendia carro, celular, consertava celular e mais um monte de coisas. Todo o dinheiro que eu pegava era para o crack. Eu podia ter um trabalho daqui a meia hora, mas se eu já tivesse dinheiro para fumar eu ia comprar o crack. O dinheiro não esquentava no bolso. Não conseguia dormir sabendo que eu tinha mais droga e podia usar.

IG – Porque resolveu pedir ajuda para deixar a dependência?

Erik - Se eu continuasse na droga, ou morreria, ou estaria preso ou viraria mendigo. Não fui morar na rua por pouco. Porque eu tinha a minha mãe. Mas é tudo uma questão de tempo. Chegaria a hora que a minha mãe não suportaria mais e eu mudaria para a rua. Como a minha esposa não suportou e acabou o casamento. Depois eu fui para a casa da minha mãe e já pedi ajuda. Em menos de um mês eu já estava internado. É complicado porque ninguém suporta. Ter um dependente químico em casa é muito complicado. Usuário de crack, então, é mais complicado.

IG – E como reage hoje a sua família?

Erik - Minha família ficou muito feliz só de eu ter vencido os seis meses de tratamento. Porque isso já é muito difícil. Já estou há um ano e meio dentro do Credeq, mesmo tempo que eu estou sóbrio. Seis meses como interno e 1 ano como voluntário. É uma vitória.

IG – O que a pessoa mais precisa para deixar as drogas?

Erik - Força de vontade é o principal. Sem isso não adianta. Tem realmente que querer. Internar gente que não quer se tratar é jogar tempo fora. E não dá para jogar tempo fora. Temos tratar quem está querendo se curar.

IG – Qual a maior satisfação de trabalhar com a recuperação de dependentes?

Erik - A nossa felicidade é realmente ver as pessoas bem. Quando elas saem e ligam falando que estão bem ou quando voltam para nos visitar. É isso que nos fortalece para realmente acreditar no trabalho e nos dá força.

iG - Você tem alguma outra atividade atualmente?

Erik - Não. Só fico no Credeq. Me dedico somente a isso. Eu sempre fui vendedor de carros novos. Mas estou afastado porque eu perdi o emprego depois das drogas. Caiu o rendimento, chegava atrasado, faltava. Aquelas coisas que sempre acontece. Hoje eu estou aqui e me dedico à só isso.

iG - Com que dinheiro você vive?

Erik - Quando eu preciso, a minha família me ajuda, mas no Credeq eu recebo um oferta, que é uma ajuda para eu comprar alguma coisa, uma roupa, algo para a higiene pessoal. Porque eu vivo no Credeq, me alimento lá. Então só recebo essa oferta simbólica.

IG – O que você espera para a sua vida daqui para frente?

Erik - Quero realmente uma nova vida. Já tem um tempo que ela começou. Já mudei pra seguir esse novo caminho. Um caminho para ajudar outras pessoas. Eu não penso só em mim, mas penso também no próximo. E eu quero continuar com isso, porque, a partir do momento que eu saí com a ajuda de outras pessoas, eu sei que outras podem sair com a minha ajuda.

* a reportagem do iG participa do seminário à convite da organização do evento

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