Israel em prosa para além dos noticiários

SÃO PAULO - ¿Leiam nossa literatura e saberão sobre nós¿, disse, certa vez, o escritor Amós Oz em entrevista. ¿A vida é curta demais para passá-la sempre no mundo da CNN¿, arremata. Citar a fonte seria o mais objetivo, mas a resposta do escritor, provocando a repórter de um jornal europeu, vale para todos que acompanham a dita realidade israelense apenas por agências e redes internacionais de notícias. Com a afirmação, ele não quer dizer que o cotidiano em Israel seja melhor do que aquilo que nos informa o noticiário, mas que sua complexidade e ambivalência vão além das imagens de destroços após a passagem de um carro-bomba. É também o que nos revela sua literatura, uma construção viva e sólida que faz pensar nestes 60 anos de Israel pelas vias da experiência.

Luciana Araújo, repórter do Último Segundo |

Fundador e principal representante do movimento israelense Paz Agora e um dos promotores do Tratado de Genebra, elaborado em conjunto por palestinos e israelenses pela criação de dois Estados, Oz, tal sua literatura, não se limita a um mundo isolado. A particularidade, como é na boa arte, ultrapassa fronteiras. Seus escritos, mais de vinte livros ao todo, como ele próprio gosta de afirmar, estão mais para janelas com vista para o quintal.

Em data em que se rememora a criação de Israel, fica a dica de leitura, de modo especial, de De amor e trevas, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras. O livro, uma autobiografia em forma de romance, espelha e faz refletir de maneira bastante profunda, por meio da trajetória da família do escritor, o próprio Estado. Conta a história do êxodo dos judeus dos países árabes e principalmente da Europa, como era o caso de seus pais, e a criação de Israel. Porém, pela vivência íntima com um pai duro e intelectual e uma mãe melancólica, que teve sua aldeia massacrada. Ela, inclusive, acaba se matando, mas deixa viva uma série de histórias, hoje vivas nas que nos conta seu filho.

Oz nasceu em Jerusalém, em 1939, ano em que a Alemanha nazista invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra e depois à Shoah (palavra hebraica que significa destruição e usada por judeus e estudiosos, uma vez que holocausto ¿ como é mais comum dizer - refere-se ao ritual religioso da imolação no judaísmo). Assim, ele viveu em sua infância o momento em que a ONU, em 1947, aprovou a criação de dois Estados, um judeu e um palestino, no território até então sob domínio britânico.

"Esta noite, meu filho, você nunca vai esquecer, até o último dia de sua vida, e sobre esta noite você ainda vai contar a seus filhos, netos e bisnetos", disse seu pai na ocasião, em tom de profecia. E foi um pouco movido pela necessidade de manter viva esta história que escreveu o livro, pois seus filhos não conheceram os avós e, segundo ele próprio, talvez os netos nunca saibam por que nasceram em Israel e não em outra parte do mundo.

Outros de seus romances como Meu Michel, Conhecer uma mulher, Pantera no porão, O mesmo mar, entre outros, buscam a persistência do que move a vida para além do conflito. No ano passado, Oz, que mora em Arad, cidade no deserto de Neguev, esteve no Brasil e participou da Flip em mesa que dividiu com a escritora sul-africana Nadine Gordimer.

Outro autor que também permite ao leitor experimentar um contato menos viciado da vida em Israel é o também israelense David Grossman. Nascido em 1954, em Jerusalém, onde estudou filosofia e teatro antes de começar uma longa carreira como jornalista. Crítico em relação a maneira como a imprensa (não só a internacional, mas também a nacional) aborda Israel, ele resolveu criar sua própria formulação da realidade por meio da linguagem.

Grossman publicou mais de vinte livros. Entre os de ficção, foram publicados no Brasil ¿ onde o autor esteve em 2005 também para participar da Flip (Festa Literária Internacional de Parati) -- Ver: Amor, Alguém para correr comigo, e Mel de leão. Destaco aqui o primeiro, que conta a história do menino Momik, filho de judeus sobreviventes do Leste Europeu. Uma infância passada na Israel da década de 50 de alguém que anos depois vai se tornar um romancista.

O garoto vai interpretando silêncios e fragmentos de conversas sobre a vida na Europa sob a sombra do nazismo. Ele acredita que Hitler é um monstro e decide atraí-lo para um galpão no fundo de sua casa para ali destruí-lo. Seu avô, perturbado desde que deixou os campos de concentração, vai ajudá-lo na tarefa. Adulto, Momik recria a história de Bruno Schulz, escritor polonês morto por um soldado nazista. Outra história dentro da história é a do próprio avô, que numa estratégia às avessas da de Sherazade em Mil e uma noites, conta a cada noite novas histórias ao comandante do campo em que esteve, e em troca este tenta matá-lo.

É de alguma forma uma história que está nos genes da gente de Israel ainda hoje, mas que nada tem de um drama que paralise seus personagens. É um romance cheio de esperança. É impossível estar às voltas com coisas imaginárias quando se está cercado por uma realidade tão horrível. Então, por causa dessa difícil situação, escolho escrever sobre dignidade, relacionamentos, relações familiares, amor, disse o escritor numa longa conversa que tivemos em 2006, para uma entrevista para a revista EntreLivros.

Conversa e a possibilidade de mudança são aspectos universais em sua literatura, especialmente explorada nos diálogos em meio às narrativas, mas os personagens, como o próprio Grossman afirma, são muito israelenses. As pessoas que lêem meus livros imediatamente conseguem reconhecer não só a linguagem ou os dialetos, mas também o comportamento das pessoas, a paisagem, a presença da história em nosso cotidiano, o sentimento de ter a violência sempre ao redor, declarou.

Na ocasião, Grossman contou-me que elegeu a palavra para enfrentar a realidade brutal que o cerca, por uma coincidência terrível, dias após nos falarmos, estourou o conflito entre Israel e o Líbano e um de seus filhos, de 20 anos, foi morto no Líbano, durante o conflito entre os dois países. Uri Grossman era comandante de um tanque do exército israelense. Nesta ocasião preferiu o silêncio ao combate. Eu nada direi da guerra na qual você foi morto. Nós, a nossa família, nós já perdemos. Israel, agora, vai fazer o seu exame de consciência, e nós nos encolheremos em nossa dor, disse o escritor no funeral.

    Leia tudo sobre: israel

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG