Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - As indústrias brasileiras de farinha de trigo, pães, massas e biscoitos anunciaram nesta quarta-feira que os preços de seus produtos continuarão subindo, acompanhando a escalada mundial dos valores da matéria-prima, num momento de estoques mundiais apertados e de maior demanda de países emergentes.

O Brasil importa cerca de 70 por cento de seu consumo interno de trigo, a maior parte da Argentina, e pagou pelo cereal do país vizinho 53 por cento a mais no primeiro bimestre de 2008, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Com isso, o preço da farinha subiu 23 por cento na mesma comparação.

Já o preço do pão francês subiu 20 por cento em 12 meses até março, enquanto as massas e o biscoito tipo 'cream cracker' subiram no mesmo período 25 e 21 por cento, respectivamente, segundo informações das indústrias.

'No caso das massas, 70 por cento do custo de produção é farinha de trigo, não há como não repassar', disse a jornalistas Cláudio Zanão, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (Abima).

Os preços dos alimentos, incluindo os dos derivados de trigo, estão tendo impacto significativo na inflação do Brasil este ano, o que deve levar o Copom a reduzir a taxa básica de juros (Selic) nesta quarta-feira.

Zanão prevê que os preços mundiais do trigo apenas poderiam começar a ceder com a entrada da safra norte-americana, a partir do segundo semestre. Enquanto isso, acrescentou ele, o preço das massas deve aumentar mais 15 por cento no segundo trimestre.

Segundo o presidente da Abima, com as elevações de preços, a indústria não conseguiu atingir as suas metas de aumentos de vendas --a entidade ainda não fechou os dados de crescimento do consumo no primeiro trimestre.

A Associação Nacional das Indústrias de Biscoito (Anib) também deve realizar novo repasse de preço em abril, entre 10 a 15 por cento, segundo disse o presidente da entidade José dos Santos Reis, na mesma coletiva de imprensa para explicar a situação do setor de trigo.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Panificação (Abip), Alexandre Pereira, afirmou também que o setor está aumentando em 12 por cento o preço do pão francês em abril. 'Reflete o aumento da farinha que compramos em março', disse ele, também destacando que o problema de aumentar preço é a queda no consumo.

SETOR QUER DESONERAÇÃO

O presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), que representa os produtores de farinha, Luiz Martins, afirmou que o setor está buscando junto ao governo desoneração de impostos pagos para importar o produto fora do Mercosul, uma vez que a Argentina está restringindo as exportações.

Além da redução da TEC (Tarifa Externa Comum) do Mercosul, Martins disse que o setor reivindica a redução da taxa de Marinha Mercante (25% sobre o valor do frete).

'Essas medidas seriam suficientes para apenas amenizar o aumento de custo', disse Martins, lembrando que as importações no hemisfério norte são mais caras do que na Argentina.

Ele disse que as negociações com o governo para a eliminação da TEC de 10 por cento e da taxa de Marinha Mercante estão mais adiantadas, mas disse que outros tributos, como ICMS, também poderiam deixar de incidir sobre o trigo.

A safra nacional, que cresceria cerca de 20 por cento, para 4,5 milhões de toneladas em 2008, segundo a Abitrigo, chegará tarde ao mercado para aliviar os preços, apenas em outubro. O Brasil consume pouco mais de 10 milhões de toneladas por ano.

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