Indústria da soja do país se contorce com entressafra mais aguda

Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - Com exportações recordes neste ano e sem ter contado com uma safra das melhores, a indústria brasileira de soja passou a adotar estratégias que incluem a antecipação das paradas anuais para manutenção das esmagadoras, com o objetivo de atravessar uma aguda entressafra, disseram fontes do setor.

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As processadoras de soja costumam paralisar as atividades ao final do ano, mas como este ano está mais difícil encontrar a matéria-prima na entressafra, algumas já pararam.

"Isso é fato, não é que tem gente (parando), é o caso de muita gente", afirmou um trader de uma multinacional, questionado se algumas empresas estariam suspendendo a produção de farelo e óleo por falta de soja.

"O Brasil exportou muito pra China no primeiro semestre... E a safra brasileira não foi recorde pra exportar tudo isso, e agora está faltando soja", declarou o trader, que pediu anonimato.

Entre janeiro e agosto, o Brasil exportou mais de 25 milhões de toneladas, contra 20 milhões de toneladas no mesmo período de 2008, com uma intensa demanda da China, numa situação de mercado futuro invertido (mais valorizado para entregas próximas), ao mesmo tempo em que a Argentina reduziu suas exportações do grão após uma quebra de safra.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) admite que a oferta é mais apertada este ano, mas informou não ter dados sobre as atividades das empresas.

"Naturalmente, como embarcou muita coisa no início, é um ano mais apertado. A gente já reduziu a estimativa de esmagamento em função disso", afirmou o secretário-executivo da Abiove, Fábio Trigueirinho --veja mais em .

Ele salientou, entretanto, que algumas fábricas, que ainda teriam soja disponível, poderiam estar parando agora, para fazer a manutenção anual, e posteriormente retomar as atividades mais para o final do ano, quando a demanda de farelo tende a crescer.

"Normalmente, a manutenção ocorre mais para o final do ano, mas, com o mercado invertido, algumas podem ter optado por fazer manutenção mais no início, pra rodar mais ao final do ano, mas isso é estratégia de cada uma."

IMPORTAÇÕES?

Diante das grandes exportações do Brasil, e com uma safra nacional em 08/09 de 57 milhões de toneladas, 3 milhões a menos do que o recorde de 60 milhões de toneladas em 07/08, o mercado se pergunta até se o país teria que importar a commodity para enfrentar a entressafra, que deve durar até o início do próximo ano, quando chega a nova colheita (09/10).

"Acho que não tem como importar a essa altura do período, a Argentina não tem. Teria que trazer dos EUA, que vão iniciar a colheita um pouquinho atrasados... Então acho pouco provável, não dá margem", disse o trader.

O Paraguai eventualmente seria uma opção, mas o país, a exemplo da Argentina, também registrou perdas devido à seca.

Uma outra fonte do setor, que trabalha para uma empresa brasileira, também afirmou que algumas companhias chegaram a considerar importações de soja dos EUA, mas descartaram tal possibilidade diante notícias de que os europeus estão barrando carregamento da oleaginosa norte-americana, por esses supostamente conterem vestígios de milho transgênico não-autorizado.

O Brasil, segundo exportador global do grão, costuma importar todos os anos volumes marginais de soja. Para este ano, a Abiove ainda prevê importações de 50 mil toneladas, ante 83 mil toneladas no ano passado.

Em 2005/06, um ano de baixa oferta, o Brasil chegou a importar 352 mil toneladas de soja.

(Edição de Marcelo Teixeira)

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