Individualismo como segredo da longevidade

As mudanças comportamentais da população brasileira são o principal motivo para o aumento da longevidade da população. Essa realidade tem menor importância no plano material e maior na transformação da mentalidade coletiva, especialmente na exacerbação do individualismo, defende Roberto Albergaria, professor da Universidade Federal da Bahia e doutor em Antropologia pela Universidade de Paris VII.

Líliam Cunha, especial para o iG |

Futura Press
IBGE mostra que população brasileira envelhece de forma acelerada
IBGE mostra que população brasileira envelhece de forma acelerada

Há algumas décadas a velhice era vista como o último passo antes da morte. As pessoas não se cuidavam e obtinham a realização pessoal através dos filhos e da família, lembra Albergaria. Hoje a constituição convencional da família nem sempre está entre as prioridades dos indivíduos ¿ que preferem se dedicar a si mesmos.

Houve de fato um aumento da longevidade, mas será que realmente ocorreram avanços na qualidade de vida?

Para o antropólogo a mídia tem responsabilidade nesse fenômeno. O número de médicos hoje nos veículos de comunicação é muito grande. É o que podemos chamar de terrorismo médico, em nome da promoção da cultura da saúde perfeita e do fitness, diz. Essa educação sanitária levada ao extremo, defende Albergaria, promoveu uma série de mudanças nos hábitos das pessoas, levando-as a cuidar mais de si.

Primeiro a mídia falou muito no alcoolismo, depois sobre o banho de sol e o câncer de pele, o culto à magreza como sinônimo de saúde e juventude. Ou seja, para se viver mais não pode beber, não pode fumar, não pode tomar sol, enumera Albergaria.

No quesito saúde pública, o antropólogo avalia que, com o SUS (Sistema Único de Saúde), aumentou o acesso à assistência médica pública. Houve ainda campanhas epidemiológicas, campanhas sobre a Aids, vacinações, tuberculose que contribuíram para a prevenção de algumas enfermidades e estimularam a população a procurar o médico como forma preventiva, diz.

Dito isso, Albergaria enuncia o que chama de paradoxo: houve de fato um aumento da longevidade, mas será que realmente ocorreram avanços na qualidade de vida?.

O ditado popular de que a melhor coisa da vida era nascer burro, viver ignorante e morrer rápido, exemplificava o desejo das gerações passadas

Com o envelhecimento da população, a tendência é que a idade para se aposentar seja estendida, para diminuir o impacto deste custo para o Estado. Por outro lado, o mercado de trabalho tende a exigir qualificações cada vez maiores. Ou seja, as pessoas levarão mais tempo para se adequarem às exigências do mercado, elevando a idade média para entrada no mercado de trabalho. 

Eis o paradoxo da longevidade: viver mais, trabalhar mais, curtir mais e pagar mais, afirma Albergaria. Para o antropólogo baiano o ditado popular de que a melhor coisa da vida era nascer burro, viver ignorante e morrer rápido, exemplificava o desejo das gerações passadas. Hoje as pessoas vivem o oposto: nascem inteligentes, estudam muito e esse estudo devora a sua juventude e morrem lentamente em um leito de UTI. 

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