Londres, 23 jun (EFE).- Caso tirem nossa terra, o que vamos deixar para nossos filhos?, pergunta Pierangela Nascimento da Cunha, da tribo wapixana, ao denunciar em Londres os problemas que seu povo sofre no Brasil.

Ela e Jacir José de Souza, índio da tribo macuxi, estão na capital britânica para divulgar a situação de sua gente na região da Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde são ameaçados por fazendeiros que os tentam expulsar de seu território legal.

Procedentes da Espanha, onde iniciaram sua turnê européia, Cunha e Souza, porta-vozes da campanha "Anna Pata, Anna Yan" (Nossa Terra, Nossa Mãe), se reunirão na próxima terça com várias autoridades britânicas para obterem apoios para uma decisão da Justiça brasileira que determinará seu futuro.

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve se pronunciar em agosto sobre um recurso apresentado por proprietários, parlamentares e o próprio Governo de Roraima contra o decreto de homologação da Raposa Serra do Sol assinado em 2005 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que garantia aos indígenas os direitos sobre suas terras.

O decreto consagrava a propriedade dos nativos sobre um território de 1,6 milhão de hectares (7% do Estado de Roraima), que faz fronteira com a Venezuela e Guiana, e fixava o prazo de um ano para a saída dos "ocupantes não indígenas".

Desde a assinatura do documento, os ocupantes da região, seis empresas do setor de arroz apoiadas - segundo os nativos - pela oligarquia local, não apenas não se retiraram, mas continuam expandindo suas plantações, às vezes com o uso da força.

Nas últimas três décadas, 21 índios foram assassinados, embora nenhum crime tenha sido condenado. Além disso, é necessário registrar a morte em um tiroteio de outros 10 índios em maio.

"Caso o STF decida a favor dos ocupantes isto estabelecerá um grave precedente para o resto de indígenas do Brasil", que neste caso se uniram em defesa de seus colegas da Raposa Terra do Sol, disse Cunha em entrevista à Agência Efe ao apresentar sua campanha internacional.

Além dos macuxi e dos wapixana, vivem em Raposa Serra do Sol os taurepang, os patamona e os ingarikó, divididos em 194 comunidades com um total de 19 mil pessoas.

Segundo Souza, eles têm pequenos cultivos de milho, arroz, mandioca e banana, cerca de 35 mil cabeças de gado e vivem de forma coletiva, respeitando o meio ambiente.

"A terra de nossos antepassados nos dá tudo o que necessitamos e, se as tirarem de nós, não temos para onde ir", lamentou Souza. EFE jm/fal

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