Índios enfrentam fazendeiros,Justiça e militares por suas terras

Por Raymond Colitt BRASÍLIA (Reuters) - Líderes indígenas disseram na quarta-feira que vão manter a luta por suas terras, apesar das ameaças de fazendeiros armados, da pressão dos políticos e das preocupações das Forças Armadas com a soberania territorial brasileira.

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A Constituição de 1988 assegurou aos índios os direitos às terras de seus ancestrais, cuja demarcação enfrenta resistências, principalmente de fazendeiros

'O Brasil achava que os índios seriam assimilados, mas eles fizeram o contrário, lutando pelo que perderam ao longo de séculos', disse à Reuters Saulo Feitosa, secretário adjunto do Conselho Indigenista Missionário (Cimi, ligado à Igreja Católica) .

A polícia tinha a intenção neste mês de retirar produtores de arroz da reserva indígena Raposa Serra do Sol, criada há três anos pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Roraima. Mas os agricultores bloquearam estradas, explodiram pontes e se armaram com coquetéis molotov para evitar a expulsão.

'Temos um exército de bons brasileiros para evitar que os índios declarem independência e transformem isto aqui num Kosovo', disse o arrozeiro Paulo Quartiero à revista Veja.

O comandante militar da Amazônia e vários parlamentares conservadores disseram na semana passada que a demarcação da reserva, na fronteira com Venezuela e Guiana, poderia comprometer a segurança nacional.

Eles temem que guerrilheiros colombianos e narcotraficantes consigam se instalar nessa área de 1,7 milhão de hectares.

'Eles dizem que somos uma ameaça à soberania, mas não conhecem nem a história do Brasil nem a nossa realidade', disse o cacique Lourenço Wapichana, da aldeia São Marcos (RR), em entrevista coletiva.

'Nossos filhos e primos estão no Exército, e defendemos essa terra quando os ingleses desceram o Orinoco [rio da Venezuela] para tentar colonizá-lo', disse Wapichana.

Fazendeiros, mineradoras e madeireiras de várias partes do Brasil se preocupam com as crescentes reivindicações territoriais dos cerca de 750 mil indígenas do país. No ano passado, 92 índios morreram em disputas fundiárias.

Os líderes indígenas que foram a Brasília dizem que a demarcação das terras é uma questão de justiça, não de economia.

'Não vamos negociar com os fazendeiros. Essa é a nossa terra e exigimos que o Estado faça valer a lei', disse Dionito Makuxi, chefe do conselho indígena de Roraima, na entrevista concedida num desgastado edifício de escritórios no Plano Piloto.

'Somos acusados de impedir o progresso, e são eles que estão destruindo e usando a violência', disse Makuxi.

Ele contou que já recebeu ameaças de morte, assim como outros chefes.

O Supremo Tribunal Federal deve decidir em maio se autoriza ou suspende a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol.

'Se o tribunal decidir contra nós, será o maior revés para os direitos indígenas em várias gerações', disse Feitosa.

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