Grupo promete resistir à força, caso humorista cumpra ameaça de tentar desmontar os banheiros a céu aberto em frente do Congresso

nullOs índios acampados há oito meses na Esplanada dos Ministérios aceitaram parcialmente proposta da Fundação Nacional do Índio (Funai), que ofereceu transporte gratuito ao grupo para municípios maranhenses de Grajaú e Barra do Corda, de onde vieram.

O líder do movimento, Carlos Pankararu, afirma que permanecerão acampados apenas 20 integrantes do movimento, escolhidos para continuar pressionando o governo pela destituição do cargo do presidente da Funai, Márcio Meira, e pela revogação do Decreto Presidencial 7.056/09. O decreto extinguiu 40 administrações regionais da Funai e 337 pólos indígenas.

Quanto aos banheiros a céu aberto que armaram em frente do Congresso Nacional, Pankararu disse que permanecerão lá. O líder indígena promete resistir, até mesmo usando a força, se o jornalista e humorista Jovane Nunes tentar cumprir a promessa de derrubar os banheiros com um trator .

“Essa história de passar o trator não é assim. Ele só pode fazer uma coisa dessas com ordem judicial. Se não tiver, vamos simplesmente impedir. Não vamos deixar de jeito nenhum”, disse Pankararu.

Banheiros improvisados lançam esgoto sobre canteiro da Esplanada
Fellipe Bryan Sampaio
Banheiros improvisados lançam esgoto sobre canteiro da Esplanada
Desde julho, quando foram retirados os banheiros químicos do local, os índios montaram duas estruturas com pedaços de madeira, lona e papelão para tomar banho e para fazer as necessidades fisiológicas. Ao lado dos banheiros improvisados, uma enorme poça de água e o mau cheiro atraem insetos e mosquitos na parte do gramado que fica entre o Congresso, o Palácio do Itamaraty e os ministérios da Justiça, das Comunicações e da Saúde.

Uma roda de cimento com um buraco ao centro – alinhado a outro buraco no gramado da Esplanada– é utilizada para sanar a falta do vaso sanitário e para evitar o contato dos pés com os excrementos. A estrutura para o banho, por sua vez, conta com apenas uma torneira de menos de um metro de altura, um balde e uma latinha.

Jovane Nunes - que faz o “Zeca Pimenteira”, do programa Zorra Total da TV Globo e uma coluna de esportes no jornal Correio Braziliense - declarou à Coluna Poder Online, que vai alugar um trator para destruir os banheiros, caso nada seja feito pelo poder público nas próximas duas semanas.

Carlos Pankararu admite que a situação de higiene é precária e por isso uma parte do grupo aceitou o oferecimento da Funai. Ele conta que a mesma água estocada no banheiro é usada para tomar banho, lavar roupas e para fazer a comida.

Os dois banheiros improvisados no canteiro central em frente do Congressso Nacional
Fellipe Bryan Sampaio
Os dois banheiros improvisados no canteiro central em frente do Congressso Nacional
“Aqui eles tomam banho, lavam roupa, levam a água daqui para cozinhar também. A situação que nós ficamos aqui é triste, de calamidade. Lonas seguradas nas varinhas, isso porque o Ministério da Justiça, junto com a Funai, tiraram os banheiros químicos. Tiraram ilegalmente, em uma ação da polícia, sem mandado judicial”.

Para a índia de etnia Guajajara Lúcia Leão Neto, de 22 anos, a falta de banheiros é ainda pior para as mulheres. “Esse banheiro não presta não, está horrível, tem muito mosquito; ainda mais para nós, mulher, que ainda sangra todo mês”, conta a índia, que preferiu deixar os três filhos na aldeia maranhense.

Já o índio Antônio Alfredo Guajajara, de 51 anos, diz que a situação na Esplanada dos Ministérios está melhor do que no acampamento em frente da Funai. De acordo com ele, a fundação cortou a água, trancou os banheiros e impediu que eles fizessem comida no local. “Aqui pelo menos tem esse banheiro aí”, afirma o índio, que resolveu se juntar ontem ao grupo acampado em frente ao Congresso Nacional.

Negociações travadas

A Funai declarou que não pode fazer nada quanto aos banheiros na Esplanada dos Ministérios. Segundo a instituição, várias propostas foram feitas aos índios, inclusive de pagar hotel para 20 lideranças indígenas durante o processo de negociação.

O índios ocuparam a Esplanada no dia 2 de janeiro. Chegaram a montar barracos improvisados no gramado. Como as negociações para a saída voluntário do grupo não avançaram, a Funai acionou a polícia no dia 10 de julho para retirá-los do local.

A operação contou com a participação de cerca de mil policiais militares e soldados do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

De acordo com o tenente da Polícia Militar Daniel Vieira, desde então, policiais militares ficam dia e noite no local para evitar que eles voltem a armar barracas. “É proibido montar barraca aqui na Esplanada dos Ministérios, então a gente fica só monitorando”.

Quanto aos banheiros, a Polícia Militar diz que também não pode desmontá-los sem uma ordem explícita da Funai. No caso de Jovane Nunes tentar desmontá-los com um trator e houver reação dos índios, a PM terá que intervir para evitar agressões.

Carlos Pankararu afirma que, caso suas reivindicações não sejam atendidas até as eleições, eles montarão um acampamento ainda maior na Esplanada, desta vez com índios de outros Estados.

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