Incentivo à doação de órgãos é insuficiente no Brasil, diz presidente de associação

SÃO PAULO ¿ Apesar do aumento no número de doadores de órgãos em São Paulo no primeiro trimestre de 2008, o presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), Valter Duro Garcia, considera que as políticas de incentivo à doação ainda ¿são insuficientes¿. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, de janeiro a março de 2008 foram 116 doadores viáveis, ante 71 nos três primeiros meses do ano passado, um aumento de 57%.

Juliana Simon, do Último Segundo |

As campanhas realizadas até agora são necessárias, mas queremos mais. É essencial investir na educação desde cedo. A Associação já tem organizado palestras para crianças de 5 a 6 anos , afirma Garcia.

O bom resultado, segundo a secretaria, deve-se ao crescimento das cirurgias de transplante para todos os órgãos neste ano. Até março foram realizados 344 transplantes de órgãos, contra 219 cirurgias no mesmo período de 2007. O número de transplantes de coração foi o que mais aumentou (122%), seguido das cirurgias realizadas no fígado (63,3%) e no rim (60,5%).

Segundo Garcia, a área de transplantes é muito avançada no Brasil. O País é o segundo maior em número de cirurgias, depois dos Estados Unidos, e é o primeiro na lista de programas de transplante de órgãos subsidiados pelo governo. Atualmente 95% das cirurgias realizadas no país são financiadas pelo governo, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Nossos profissionais têm formação de fora, temos as melhores drogas e as melhores técnicas, disse.

Após transplante, vida normal

Márcia Maluf, 55 anos, foi a primeira mulher transplantada do coração no Instituto Dante Pazzanesi, em São Paulo. Aos 43 anos, recebeu o coração de um jovem de 21 anos que foi assassinado em um caixa eletrônico. 

"É maravilhoso ter a chance de recomeçar", diz Márcia. Sobre o trâmite para conseguir um órgão ela diz que foi uma privilegiada, pois conseguiu a doação em 12 dias. Muitas vezes o órgão não é compatível e não sabemos o que vamos encontrar. Eu entrei no hospital e fui transplantada no mesmo dia". Muito bem humorada, Márcia trabalha como tradutora e diz que hoje vive uma vida normal. "Toda sexta-feira saio para dançar com o meu marido', diz.

Logo depois do transplante, Márcia fundou em São Vicente, litoral de São Paulo a Associação dos Transplantados Cardíacos. "Na época, o único remédio que eu e outros transplantados poderíamos usar era importado e depois que o real desvalorizou o governo disse que só forneceria o medicamento com liminar judicial. Fundei a associação para lutar pelos nossos direitos, afinal têm pessoas transplantadas que não podem nem pagar nem a condução".

Segundo Márcia, hoje há genéricos para a medicação e é perfeitamente possível viver sem problemas depois da cirurgia.

Caminho da doação

Em vida, pode-se doar um órgão duplo como o rim, uma parte do fígado, pâncreas ou pulmão, ou um tecido como a medula óssea, para que se possa ser transplantado em alguém de sua família ou amigo. Este tipo de doação só acontece se não representar nenhum problema de saúde para a pessoa que doa.

Em caso de morte encefálica, é possível doar córneas, coração, pulmão, rins, fígado, pâncreas, ossos, medula óssea, pele e valvas cardíacas. A família deve autorizar a doação, por isso é importante que uma pessoa, que deseja após a sua morte, ser uma doadora de órgãos e tecidos comunique à sua família sobre o seu desejo.

Como receber

Os pacientes que apresentem a necessidade de um transplante de órgãos são colocados nas listas de espera pelos médicos. Depois de exames imunológicos e de sangue, os dados do paciente são registrados na central de transplantes de seu Estado (veja aqui), que são atualizados a cada 2 ou 3 meses. Encontrado um doador do órgão, são selecionadas as dez pessoas com mais condições de receber. Estas são contatadas pelo hospital e passam por exame de sangue, para que seja feita a primeira prova de compatibilidade.

O critério de escolha para o receptor na lista de espera é diferente para cada um dos órgãos. Segundo o presidente da ABTO, o transplante de rim é determinado pela compatibilidade. O de fígado apresenta fila bastante dinâmica, segundo médico, pois a cirurgia é determinada pela gravidade do quadro do paciente. A de córnea segue a ordem de chegada de pacientes.

A fila do coração é feita pela combinação de tempo de espera, gravidade e compatibilidade sangüínea e de peso. Só se pode receber um coração de uma pessoa com diferença de peso de 12 quilos para mais ou para menos, afirma Garcia.

O último dado disponibilizado pelo Ministério da Saúde mostra que, até junho de 2007, 69.053 pessoas estavam à espera de doação de órgãos. A maior espera é por um rim, com 34.077 pessoas (8.998 só em São Paulo).

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