Hugh Hudson debate com Gerald Thomas na Mostra de SP neste domingo; leia entrevista

SÃO PAULO ¿ O cineasta inglês Hugh Hudson está em São Paulo para integrar o júri da 32ª Mostra Internacional de Cinema. O diretor de ¿Carruagens de Fogo¿ (1981), ganhador de quatro Oscars, também é tema de uma apresentação especial de quatro de seus longas-metragens, incluídos na programação. Neste domingo (25), após a exibição de ¿Revolução Revisitada¿, Hudson vai conversar com o público sobre o filme e debater com o dramaturgo e colunista do iG Gerald Thomas. A sessão está agendada para as 20h, no Unibanco Arteplex.

Marco Tomazzoni |

Acordo Ortográfico O grande destaque da passagem de Hudson pelo Brasil é justamente a apresentação de Revolução Revisitada, nova versão do original lançado em 1985. À época, o filme estrelado por Al Pacino foi um fracasso de bilheteria e de crítica, quase levando à falência a Goldcrest Films devido ao orçamento milionário da produção, estimada em US$ 28 milhões.

Livre das pressões que sofreu do estúdio, Hudson ¿ que naquele tempo vinha do grande sucesso que a foi a saga olímpica Carruagens de Fogo ¿ remontou o longa e adicionou uma narração de Pacino, mudanças que têm agora, mais de 20 anos depois, angariado fortes elogios ao filme, que será lançado em DVD em 2009.

Sofrendo os efeitos de uma tarde calorenta na capital paulista, Hudson revelou, em entrevista ao iG , que há cerca de três anos foi convidado a vir à Mostra, mas uma série de mal-entendidos adiou a viagem. Ansioso pelo papel de jurado, o inglês afirmou não ter ideias pré-concebidas de como será escolhido o ganhador do troféu Bandeira Paulista. Meu critério é aprender bastante. São só trabalhos de diretores jovens, com no máximo dois filmes, por isso acredito que será uma ótima experiência.

Dos longas inseridos na programação da Mostra, recomendou o italiano Gomorra e o turco Three Monkeys, ambos premiados em Cannes, além de exemplares do cinema mexicano, que admira muito. Quanto a seus próximos projetos, Hudson, que não lança um filme há oito anos (o último foi África dos Meus Sonhos, com Kim Basinger), fez mistério. Estou trabalhando com diversas coisas, é difícil explicar. Esse tipo de coisa toma tempo e eu trabalho muito devagar. São projetos ambiciosos, que envolvem grande orçamento, despistou.

Se o futuro permanece desconhecido, o mesmo não pode se dizer do passado. Transparente, Hudson falou sobre o lançamento às pressas de Revolução, a gana de Hollywood por lucro e de como foi o resgate do longa-metragem. Leia abaixo os melhores momentos.

iG: Queria entender como foi o contexto em que Revolução foi lançado. Sei que você teve problemas de orçamento e prazo.
Hugh Hudson: Simplesmente a produtora queria que o filme trouxesse dividendos o mais rápido possível, que entrasse dinheiro, e disse que ele estava pronto, que deveria ser lançado. Essas pessoas se acham são tão sábias, tão espertas, e não são nada disso. O filme não estava concluído, simples! Precisávamos colocar uma narração e não tivemos tempo para fazer isso. Eu ia escrever depois das filmagens, porque as cenas exigiam um texto bastante preciso, e não pude. Como resultado, o lançamento foi um desastre. O filme foi atacado por todos os lados, primeiro nos Estados Unidos e depois os jornalistas na Europa os seguiram. Foi trágico.

Al Pacino estava disposto a retornar ao filme? Como foram as negociações para concretizar a remontagem?
Pacino e eu queríamos desde sempre retomar o projeto, nos conhecemos muito bem, nos encontramos com frequência. Finalmente fizemos com que a Warner Brothers colocasse o dinheiro necessário, e isso porque oferecemos algo em troca. Trabalhamos na produção de DVDs ¿ eu nos meus filmes, Pacino nos dele ¿ e chegamos a um acordo. O filme finalmente ficou pronto mais de 20 anos depois. Agora pode descansar em paz.

Qual era exatamente o problema da versão original?
Não tinha narração e o filme tem poucos diálogos. Como consequência, o espectador não sabe o que está acontecendo. A narração é muito importante em vários filmes. Há quem diga que não se pode ter narração no cinema, que é errado, mas isso é uma besteira. Posso listar agora vários filmes que tem narração: Além da Linha Vermelha, Cinzas no Paraíso e todos os filmes de Terrence Malick; Soberba, de Orson Welles; Barry Lyndon, de Kubrick; e Woody Allen, diversas vezes. É uma ferramenta como qualquer outra, não tem nenhum problema se usada no contexto certo.

A interferência dos estúdios é constante para quem trabalha em Hollywood?
Sempre se tem problemas como se trabalha com gente como os americanos. Gosto muito deles, não me interprete mal. Quando é necessário financiamento para um orçamento muito grande, precisamos dos americanos. Mas quando o contrato é assinado e você pega o dinheiro deles, é preciso dançar conforme a música, o que é péssimo. Na Europa, há uma cláusula que prevê que ninguém pode tocar no seu trabalho se você não quiser. Em Hollywood, essa cláusula é excluída deliberadamente ¿ lá, o dólar é mais importante do que tudo. Você assina um pacto com o diabo, e eles são mesmo o diabo algumas vezes (risos). Não sou anti-americano, longe disso. Tenho ótimos amigos e já tive belas experiências trabalhando com os americanos. Mas tenho um longo histórico de confrontos sobre o que é arte. Os europeus consideram o cinema como uma forma de arte; os americanos, não. Para eles, é apenas comércio.

Você pensa em algum dia voltar a trabalhar com a imponente infra-estrutura hollywoodiana?
Não, não quero mais me envolver nisso, já fiz por tempo demais. Agora estou mais interessado em produções independentes, com dinheiro independente, e depois procurar Hollywood apenas para a distribuição, nas minhas condições ¿ é pegar ou largar. Aí sim eles podem aplicar dinheiro na publicidade, por exemplo, e só. Nas duas ou três vezes que quiseram mudar meu trabalho, não deu certo. Todo mundo tem boas ideias, claro, mas eles têm ideias péssimas com muito mais frequência.

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