HPV: vírus também atinge homens

HPV: vírus também atinge homens Por Andressa Zanandrea São Paulo, 03 (AE) - A estudante de relações internacionais Marina Cardillo, de 21 anos, ouviu falar sobre o HPV pela primeira vez nas aulas de educação sexual, ainda nos tempos do colégio. Neste ano, resolveu tomar uma vacina para se proteger do vírus.

Agência Estado |

"Minha prima tomou primeiro e minha mãe incentivou. Eu me informei bastante e acho fundamental tomar a vacina. Fiquei mais tranquila, pois é uma coisa a menos para se preocupar", diz ela, que tomará a terceira e última dose em janeiro do próximo ano.

Há dois tipos de vacina contra o HPV (papilomavírus humano) disponíveis no mercado. Uma delas protege dos tipos 16 e 18, que são de alto risco e provocam 70% dos casos de câncer de colo de útero, a segunda causa de morte por câncer em mulheres no mundo. A outra tem proteção também para os tipos 6 e 11, que causam aproximadamente 90% das verrugas genitais.

Existem mais de 100 tipos de HPV - infecção transmitida sexualmente mais comum. Desses, cerca de 40 podem infectar as áreas genitais de homens e mulheres. A prevalência das infecções na América Latina está entre as mais altas do mundo e foi tema de discussão durante o Congresso Mundial de Doenças Infecciosas Pediátricas, em Buenos Aires, na Argentina, no dia 19 deste mês.

"A forma mais comum de contágio de HPV é a transmissão pelo contato sexual. Há outros meios também possíveis, como o contato com as mãos", afirma o infectologista Javier Nieto. Entre os problemas causados pelo vírus ele destaca o câncer de colo de útero, que mata 8.286 mulheres por ano no Brasil e pode ser tratado. "O tratamento depende da etapa do câncer e do tamanho do tumor, pode ser cirurgia, radio ou quimioterapia. Muitas dessas mulheres não poderão mais ter filhos." Mulheres com menos de 50 anos representam a maioria dos casos.

O HPV também se relaciona a outros tipos de câncer e tumores benignos, menos frequentes, que podem acometer homens e mulheres. As lesões podem ocorrer no ânus, pênis, uretra, vagina, vulva, na orofaringe e até a pele (sobretudo em regiões expostas ao sol) e costumam aparecer de dez a 20 anos após a exposição ao vírus - antes disso, entre dois e cinco anos após o contágio, podem aparecer lesões precursoras, que devem ser tratadas antes de se tornarem um câncer. As verrugas podem atingir, além dos órgãos sexuais, a faringe, a laringe e a cavidade oral. Elas são contagiosas e aparecem dentro de semanas ou meses após a infecção.

O ginecologista oncológico colombiano Gonzalo Pérez, diretor médico de vacinas da MSD América Latina, explica que, após o contágio, o vírus pode se manifestar ou pode haver a remissão dele. "A vacina bloqueia o processo dos vírus e não contém vírus vivos." São dadas três doses. A segunda é ministrada dois meses após a primeira e a terceira seis meses depois da primeira. Não é preciso reforço.

No Brasil, a vacina está recomendada apenas para meninas e mulheres de 9 a 26 anos de idades. Nos EUA, porém, o uso também já foi liberado para homens. Além da vacinação, que é recomendada pela Organização Mundial de Saúde, também é importante que as mulheres façam exames ginecológicos (como o de Papanicolau) todos os anos após o início da atividade sexual.

Homens e mulheres também devem ficar atentos a alterações no corpo - mesmo que sejam mínimas, como coceira, sangramentos ou desconforto no ato sexual - e procurar um médico assim que elas aparecerem. "A vacina não previne de todos os tipos, então é importante continuar o monitoramento", indica Pérez.

Outro aspecto importante, segundo a doutora em bioquímica Luisa Villa, diretora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, é o hábito comportamental. Pais e escolas devem falar sobre o assunto, como foi com Marina. "Não se deve pensar que os filhos são muito jovens para receber informações sobre os riscos de contrair o HPV."

Também é preciso investir em cuidados básicos de saúde. "É importante comer bem, dormir bem, ter bom sexo e saber com quem está se deitando", diz Luisa. Além de usar preservativo, é necessário conhecer bem o parceiro e observar se há alterações na região genital. Mesmo que não haja penetração, só o contato manual ou o atrito já pode infectar. "O risco de aquisição do HPV existe para qualquer um."

Boxe:
Respostas para as dúvidas mais comuns
A doutora Luisa Villa responde às dúvidas mais comuns sobre o HPV.

Posso pegar HPV no vaso sanitário?
Existem poucos estudos que encontraram o HPV em tampas de privada, toalhas, calcinhas ou sabonetes. É possível, mas pouco provável. O risco é muito menor do que o do contato sexual, mas é melhor evitar.

Tive verrugas genitais, que foram eliminadas. Estou livre do vírus?
Para algumas pessoas, a verruga eliminada quer dizer remissão total da lesão e da infecção, mas o vírus pode voltar. Nos casos de baixo risco, em geral, ele é eliminado. Nos de alto risco, que são oncogênicos, tende a ficar.

O HPV causa apenas câncer de colo de útero?
Não. Também pode causar tumores em outras partes, como vulva, vagina, pênis, orofaringe (faringe, laringe e cavidade oral), pele e ânus, mesmo em quem não pratica sexo anal. Há vários homens infectados, mas poucos têm câncer de pênis, cuja incidência é 20 vezes menor que a do câncer de colo de útero. Nos casos de câncer de vulva e pênis, a cirurgia é mutiladora.

Verrugas podem aparecer em outras partes do corpo?
Elas podem atingir também o trato respiratório.

Como é o tratamento?
É feita a remoção da lesão, com cirurgia, laser ou pomadas. Também há imunoterapia para remoção de verrugas e lesões de baixo grau.

O HPV pode ser silencioso?
A maioria das infecções é assintomática. A pessoa tem o vírus e nem sabe. Ele pode nem se manifestar, mas mesmo assim a pessoa pode estar transmitindo.

Qual é o risco para quem é homossexual?
Eles podem ter verrugas genitais e anais e tumores de ânus, cuja incidência é maior entre eles.

Só virgens podem tomar a vacina?
O maior benefício é para quem ainda não se expôs ao vírus, mas ela existe para todas. No Brasil, não está disponível na rede pública e é recomendada para mulheres de 9 a 26 anos. As grávidas não devem tomá-la.

Que medidas são indicadas para evitar a doença?
Conhecer o parceiro, conversar sobre a relação, dormir bem, comer bem, praticar exercícios, ter o emocional equilibrado, manter atividade sexual saudável, saber dos hábitos do parceiro e observar se há alterações. É importante procurar o médico diante de qualquer sintoma, como coceira ou dor na relação sexual.

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