MAR DEL PLATA ¿ O filme Estrada Real da Cachaça, no qual o diretor Pedro Urano percorre a história do Brasil seguindo a trajetória da bebida mais popular do país, será um dos destaques do Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata.

"Tempos atrás, eu estava numa festa em que todos tomavam cachaça à vontade e me disse: 'alguém deveria fazer um filme sobre essa bebida que deixa as pessoas tão felizes'. O que começou como brincadeira, terminou como um grande projeto", comentou Urano em entrevista.

O filme percorre a história da cachaça, visita sua principal região produtora, explica os caminhos até o consumidor e inclui os mistérios e rituais ligados ao seu consumo, o que faz da produção uma mistura de documentário e "road movie" que permite descobrir os costumes da vida rural em torno desta bebida que simboliza, entre outras coisas, a libertação da dominação portuguesa no Brasil.

"Pode-se dizer até que o Brasil nasceu quando deixou de beber 'o vinho do reino' para começar a tomar cachaça, conhecida como 'o vinho da terra'. Esse é um momento muito simbólico que se dá durante a época da colônia", disse Urano.

Durante as pesquisas, o cineasta descobriu a importância da cachaça em relatos e desenhos feitos por integrantes de expedições holandesas e francesas que vinham para o Brasil no século XVIII explorar ouro no atual estado de Minas Gerais. Era deles o "Caminho Real" para o transporte do metal precioso até o porto de Paraty.

"Tomei em parte a experiência desse Caminho Real para criar este caminho imaginário da cachaça. Minha idéia surgiu em Minas, porque percebi que lá existe uma cachaça muito boa e não há região de cultivo de cana-de-açúcar, que fica concentrada no litoral", contou o cineasta.

Esse traçado imaginário, que leva o espectador dos canaviais aos vários pontos de venda da bebida no país, foi traçado durante a própria rodagem do filme, vencedor do prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio de Janeiro.

"A cachaça está realmente imbricada na vida cotidiana e ma história do Brasil, a tal ponto que durante as pesquisas percebi que cada vez que se deram no país projetos mais claros de Nação ¿ como a Proclamação da República em 1889, a ditadura de Getúlio Vargas em 1945 e a partir do governo Lula ¿ houve fortes manifestações culturais nas quais a bebida tinha forte presença, através da poesia, da música e da literatura", explica Urano.

"Agora não existe mais o que acontecia antes, quando a cultura brasileira estava orientada pela francesa ou pela norte-americana. Hoje, o Brasil olha para si mesmo. Por isso, e a cachaça é um pretexto para falar do Brasil e de sua história", declarou o cineasta.

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