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Hipertensão, a doença democrática que afeta todas as idades

Hipertensão, a doença democrática que afeta todas as idades Por Marcela Rodrigues Silva São Paulo, 18 (AE) - Medir a pressão era para ser apenas um teste para a fisioterapeuta Mirna Migliacci, de 46 anos. Há 20 dias, ao checar se o aparelho novo que ela havia comprado para sua clínica de reabilitação funcionava bem, descobriu que o procedimento seria incorporado à rotina: estava hipertensa.

Agência Estado |

"Apesar de ter hipertensos na família e de ser ex-fumante, há cerca de dois anos fiz alguns exames para a academia e estava tudo normal", conta ela, que conhece bem algumas das consequências da hipertensão. "Lido diariamente com pacientes que têm sequelas de derrame", completa.

A hipertensão é responsável por 80% dos casos de acidente vascular cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame, segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) - que também aponta a pressão elevada como causa para 40% dos casos de enfarte e 25% dos quadros de insuficiência renal terminal. "Os sintomas só aparecem quando surgem lesões em órgãos importantes, como rins e coração. Há uma cultura de a pessoa só se preocupar quando está sentindo algo diferente", esclarece o presidente da SBH, o cardiologista Fernando Nobre. Segundo ele, a doença é democrática. "Afeta todas as faixas etárias, entretanto é mais frequente nas idades mais avançadas", completa.

Apesar de ter graves consequências, a hipertensão é um quadro tão comum que muitas vezes é tratada com banalidade. "No Brasil, 35% das pessoas têm hipertensão e a metade delas não sabe disso. Das 300 mortes por eventos cardiovasculares que acontecem anualmente no Brasil, 80% tem no registro de óbito a hipertensão como causa. E a maioria das pessoas só descobre a situação quando há um aumento súbito", observa o cardiologista e especialista em hipertensão do Hospital do Coração de São Paulo, Celso Amodeu. Foi o que aconteceu há poucas semanas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que passou por uma elevação repentina de pressão enquanto visitava Recife, em Pernambuco. De acordo com o médico Cleber Ferreira, que acompanha o presidente há cinco anos, a pressão arterial dele chegou a 18/12. A partir de 14/9, dizem os especialistas, a pressão já é considerada alta, sendo que o índice normal é de 12/8.

Mesmo quem está ciente de que sofre de hipertensão demora a acreditar que ela possa mesmo ser tão perigosa. De acordo com dados da SBH, apenas 10% dos pacientes segue a orientação médica para tratá-la. Nem mesmo entre os profissionais da saúde o nível da pressão arterial é tratado como prioridade: a SBH indica que em só 29% das consultas feitas no País o médico realiza a medição.

Para tentar reverter esse quadro, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) prepara a campanha "Sem sal", que será lançada em abril, mês do combate à hipertensão. "O objetivo é atingir a população em geral e também os fabricantes de produtos industrializados. Cerca de 70% do sal que consumimos vem dos alimentos já prontos. Hoje, esses produtos não precisam mais do sal como conservante", adianta o diretor de Promoção à Saúde Cardiovascular da SBC, Dikran Armaganijan.

A aposentada Maria Pesto, 75 anos, já se habituou a manter uma alimentação saudável para controlar a hipertensão. Ela conta que foi surpreendida pela doença há 15 anos, época em que não aferia a pressão. "Como não sentia nada de errado, ficava despreocupada. Hoje, anos depois, nem sinto falta daquilo que tive que deixar, como o sal e as comidas gordurosas", diz ela, que pela ausência de sintomas demorou a ter o problema diagnosticado. Atualmente, Maria frequenta reuniões mensais na Associação Paulista de Assistência ao Hipertenso (www.apah.org.br), que tem cerca de 1.500 associados.

Para não exagerar no sal, considerado pelos especialistas o principal responsável pela hipertensão, Maria segue à risca a recomendação do médico: uma colher de café, rasa, é o volume máximo que ela pode usar por dia do condimento ao cozinhar. "O que podemos tolerar é uma ingestão diária de, no máximo, 6 gramas", indica Nobre. Vale lembrar que o sal também tem funções importantes no organismo e, portanto, não pode ser cortado completamente. "Na falta dele há risco de ter inchaço e hipotensão", afirma o cardiologista do Hospital do Coração, Daniel Magnoni.

BOXE

Prevenção e tratamento dependem dos hábitos de vida

É o estilo de vida que vai determinar se um individuo com tendência genética à hipertensão (com histórico de familiares que tiveram o quadro) desenvolverá a doença quanto se um indivíduo que já foi diagnosticado como hipertenso conseguirá controlar a situação.

Além de manter uma alimentação saudável, evitando o excesso de sal e de itens industrializados, é preciso abandonar o tabagismo e o álcool, além de fugir do sedentarismo. "Indico a caminhada três vezes por semana, que não tem contraindicações e nem custos financeiros", diz o cardiologista Celso Amadeu, especialista do Hospital do Coração.

Segundo Amadeu, a prevenção e o tratamento da hipertensão dependem diretamente dos hábitos de vida, mais do que das medicações. "Em alguns casos há o tratamento com remédios, prescritos pelo médico de acordo com a pessoa."

O sal é considerado um vilão para quem tem hipertensão por causa de seu principal componente, o cloreto de sódio - um mineral que retém líquido no organismo, aumentando a pressão arterial e o trabalho dos rins. Segundo a SBH, em excesso até o pãozinho francês é perigoso: 1 unidade tem um grama de sal. Seis unidades, isso se a pessoa não ingerir nenhum outro alimento no dia, já estouram a cota diária de sal recomendada pelo Ministério da Saúde. Confira abaixo quem são os campeões do sal.

RANKING DO SÓDIO : Valores de sódio para cada 100 gramas de alimento

ALTO TEOR DE SÓDIO
- Macarrão instantâneo: 1516 mg
- Queijo parmesão: 1844 mg
- Shoyo: 5024mg

MÉDIO TEOR DE SÓDIO
- Batata chips: 607 mg
- Biscoito recheado: 239mg
- Biscoito cream craker: 854 mg
- Coxinha de frango frita: 532 mg
- Extrato de tomate: 498 mg
- Palmito em conserva: 514 mg

(Fonte: Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), tendo como referência um valor diário máximo de 2400 mg de sódio na alimentação de um adulto.)

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