Alicia García de Francisco. Veneza (Itália), 5 set (EFE).- A seção em competição do Festival de Cinema de Veneza exibiu hoje dois filmes muito diferentes, mas centrados no isolamento do ser humano frente ao ambiente onde vive, em um caso, através da crítica irônica e do surrealismo de Werner Herzog, e, em outro, com a profundidade sentimental de Patrice Chéreau.

Após participar na sexta-feira com "Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans", Herzog se tornou a "surpresa" que faltava na seção oficial e a figura onipresente desta 66ª edição do festival, com dois longas-metragens em competição e um curta - "La Boheme" - em uma seção paralela.

E após o cinema negro que não convenceu na sessão de ontem, o diretor alemão oferece um segundo trabalho, muito distante do anterior, no qual se situa mais próximo do universo de David Lynch (produtor da fita), mas com toques característicos de sua cinematografia.

"My Son, My Son, What Have Ye Done" é uma história com ares de tragédia grega que conta através de flashback a transformação de Brad Macallam (Michael Shannon), em processo que o leva a assassinar sua mãe, que é o ponto de partida do filme.

Uma casa rosa com flamingos como "leit motiv" para a decoração, a gosto de uma mãe obsessiva e superprotetora são elementos mais que suficientes para entender as reações de um filho desequilibrado e com um mundo interior retorcido e complexo.

Com diálogos divertidos, situações absurdas, cenas estáticas e personagens estranhos, Herzog compõe um filme que lembra Lynch, mas com uma estrutura narrativa menos complexa e um cenário mais kitsch.

Todo o peso do filme cai sobre os ombros de Shannon, que já demonstrou em "Foi Apenas um Sonho" sua capacidade de interpretar personagens com desequilíbrios mentais, aos quais oferece a justa medida de loucura e cordialidade.

Com coadjuvantes de luxo como Chloë Sevigny e Willem Dafoe, o filme é divertido e desperta interesse, mas a parte final deixa muitas dúvidas sobre uma história à qual faltam elementos que lhe deem a força necessária.

Frente a esse mundo irreal do filme de Herzog, aparece o realismo de "Persécution", não isento, no entanto, de personagens que - como voz da consciência - ajudam no desenvolvimento pessoal do protagonista.

Romain Duris interpreta Daniel, um jovem bastante seco e distante em seu tratamento com os outros, especialmente com a namorada, Sonia - vivida por Charlotte Gainsbourg, que chega com o prêmio de interpretação de Cannes por "Anticristo", de Lars Von Trier.

Mas, surpreendentemente, Daniel é voluntário em um asilo de idosos e se preocupa com os outros mais do que quer deixar transparecer.

Daniel se vê perseguido e, em alguns momentos, acossado por um indivíduo estranho que diz estar apaixonado por ele, um Jean-Hugues Anglade que se transforma no elemento perturbador da história e da vida do jovem, mas não necessariamente em sentido negativo.

O filme explora as relações humanas em todos os níveis, algo habitual nos filmes de Chèreau, como "Intimidade", com o qual "Persécution" tem muitas semelhanças.

O diretor consegue isso através de um protagonista muito pouco capacitado para se relacionar com os outros, apesar do esforço que faz para conseguir, e que acredita não encontrar resposta nos demais.

Duris faz uma interpretação um tanto forçada, enquanto Gainsbourg mostra uma frieza muito adequada para seu papel, mesmo que com risco de aparecer inexpressiva na tela.

A história se desenrola em Paris, mas poderia se situar em qualquer outra grande cidade e na qual a paisagem externa tem pouca importância, imersa em uma escuridão e em planos médios que quase a apagam da imagem.

Profundidade sentimental e intelectual para um filme que não chega a explicar com clareza o comportamento de seus personagens e que se deixa levar demais pela busca da complexidade. EFE agf/an

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